• Victor Melo

“É uma tentativa de apagar todas as imperfeições e de fingir que é igual a outra pessoa"

A psicóloga Patrícia Caldeira fala sobre como a pressão estética pode afetar jovens e qual é o papel das redes sociais nesse processo

A cirurgias plásticas aumentaram entre jovens e adolescentes 110% nos últimos 10 anos | Foto: Freepik

Há pouco menos de três semanas, uma jovem de 18 anos passou por uma cirurgia Lipo Lad e decidiu compartilhar o processo nas redes sociais. O vídeo rapidamente viralizou e chocou muitas pessoas, por se tratar de uma menina tão jovem passando por um procedimento tão agressivo. Mas esse tipo de prática está cada vez mais comum no Brasil, principalmente entre os influenciadores digitais.


Em 2018, o Brasil foi o país que mais realizou cirurgias plásticas e procedimentos estéticos no mundo e essas intervenções têm sido cada vez mais populares entre os mais jovens. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o número de cirurgias estéticas realizadas em adolescentes de 14 a 18 anos cresceu 110% nos últimos 10 anos.


Muitas dessas pessoas, que se submetem a esses procedimentos tão cedo, acompanham influenciadores que já passaram e divulgaram todo o processo das cirurgias na internet. Além de fazerem mudanças drásticas no corpo e rosto, esses jovens podem acabar desenvolvendo problemas psicológicos na tentativa de alcançar os rigorosos padrões estéticos.


O não alcance do tão sonhado corpo perfeito acaba sendo motivos de várias consultas em terapeutas e psicólogos, que acabam fazendo um trabalho de redução de danos das influências que esses jovens adquiriram através das redes sociais.


Patrícia Caldeira | Foto: Acervo Pessoal

Para entender um pouco sobre esse processo de influência e como a pressão estética pode afetar a vida desses muitos jovens, a Ponta conversou com a psicóloga Patrícia Caldeira, que trouxe algumas reflexões acerca do assunto.

Há algumas semanas, viralizou um vídeo de uma jovem de 18 anos que se submeteu a algumas cirurgias plásticas consideradas bastante agressivas para um corpo em formação. O que leva esses jovens a procurarem esse tipo de intervenção cada vez mais cedo?

O que levou ela a fazer isso eu não posso te dizer porque não conheço o caso e são muitos fatores. Mas isso não é uma coisa nova. A pressão estética hoje é muito maior e a cirurgia plástica funciona como os remédios funcionam, como algo mais rápido. As pessoas não querem esperar que a mudança aconteça naturalmente. Então você tem alguns adolescentes que ainda estão em fase de desenvolvimento e que querem um seio maior, por exemplo, e que no processo natural seria possível que isso acontecesse, só que as pessoas não querem esperar. Existe algo que é essa resposta imediata. Isso é um fator. E, segundo, a necessidade de você ter uma referência externa para que você não precise se olhar. Então você passa a almejar algo que está muito distante de si, para suprir carências e lacunas que são suas. Essas pessoas muitas vezes têm problemas de autoestima, que não é um preenchimento que vai ajudar, porque são questões muito mais profundas. Eu não conheço o caso, mas uma menina como essa, de 18 anos, que faz muitas mudanças e que nem se reconhece mais como era antes, é muito provável que, daqui a um tempo, mais coisas no corpo dela não estejam do jeito que ela gostaria. É como se fosse um processo de dependência: ela vai buscando cada vez mais intervenções porque, na verdade, não é a intervenção em si, geralmente existe um vazio muito maior em torno disso. E aí a gente pode ir para a construção da autoestima dela na infância, o apego dela à falta de acolhimento dentro da família. São muitos fatores que podem levar as pessoas a se viciarem em cirurgia plástica ou fazerem intervenções como essas muito cedo. As implicações disso também variam muito porque existe um investimento financeiro e emocional. São cirurgias e existe uma expectativa muito grande em cima disso, mas quando você tenta tapar o sol com a peneira vou usar o popular não funciona. Então ela vai, faz todo esse investimento, se olha no espelho e ainda não se reconhece, ainda não se sente feliz, aí pode vir depressão, transtorno de ansiedade, dificuldade de aceitação ainda maior. Isso é algo muito arriscado. Os profissionais de saúde que trabalham com cirurgia plástica e com a parte de estética devem cada vez mais se preparar para essa parte, para dar esse suporte emocional de alguma forma, porque pode ser catastrófico.


Hoje em dia é muito comum encontrarmos influenciadores postando vídeos de cirurgias que fizeram, o que acaba influenciando os seguidores a fazerem esse tipo de intervenção também. Como isso pode ser prejudicial?


É muito irresponsável. A categoria profissional Digital Influencer é um trabalho que exige uma responsabilidade afetiva muito grande e, por trás disso, uma certa maturidade. Mas, muitas vezes, essas pessoas estão em formação, são muito jovens, acabam não sabendo qual é o poder da sua influência e acabam sendo irresponsáveis. O público assiste e consome um produto de perfeição que não é verídico: essas pessoas fazem todos esses procedimentos e, ainda assim, carregam nos filtros, nas edições das fotos, dos vídeos, possuem iluminação e tudo mais. Esse mundo de faz de conta que é vendido é muito perigoso. Recentemente eu assisti um vídeo daquela Blogueirinha do Fim do Mundo, que é o personagem de uma atriz, e ela fala sobre isso, sobre como é irresponsável você vender como verdade uma mentira maquiada. Esse público compra a ideia e na verdade são pessoas com a autoestima muito baixa que, mesmo fazendo todos esses procedimentos, ainda não se reconhecem, mas que se vendem felizes. Então é muito irresponsável, ainda mais por esse público ser cada vez mais jovem e isso me deixa muito preocupada realmente.


Essa influência é tão grande que algumas pessoas acabam fazendo procedimentos para ficarem parecidas com uma determinada celebridade. Por que isso acontece?

Isso existe desde sempre. O que acontece é que há algum tempo os procedimentos estéticos não eram tão democratizados assim, então você precisava ter muito, muito dinheiro para realizá-los. Hoje em dia, não só cirurgiões plásticos fazem essas intervenções, outros profissionais de saúde também acabam fazendo. Mas isso acontece porque precisamos de referências. Nossa identidade é construída a partir da identificação, então a gente tem referências na nossa vida, dentro da nossa família e dos nossos grupos sociais, e não há problema nenhum nisso. A questão é que, muitas vezes, essas pessoas dentro do seu seio familiar e dos seus vínculos mais fortalecidos acabam não construindo essa referência e você precisa buscar isso muito externamente. Eu vou falar de uma forma que não pareça muito catastrófica e que nem coloque a família no lugar de vilã, mas se eu tenho uma menina que foi educada dentro de um contexto familiar em que ela se sentia feia, desajeitada, que ela tinha uma mãe ou pai com autoestima muito baixa, que sempre se colocava para baixo e se submetia à opinião dos outros, essa menina sente a necessidade de buscar referências fora desse contexto e não se acolhe porque não foi acolhida, então “eu preciso buscar alguém que esteja acima de mim e que traga tudo que é o oposto ao que eu tenho, para que eu me sinta representada”. Então essas pessoas buscam referência muito longe delas porque o vazio é cada vez maior, então ela precisa de alguém que more longe dela, que tenha um formato de rosto completamente diferente, não só porque quer ter o tipo de corpo daquela pessoa, mas ter o estilo de vida que ela tem. “Eu quero parecer com ela em outros aspectos que não só o físico”. Por exemplo, se uma criança negra não tiver alguém que a apresente referências de pessoas também negras, a autoestima dela pode ficar muito baixa porque, na televisão e internet, a maioria dessas referências são brancas e loiras. Isso pode fazer com que, em algum momento, ela queira aquelas características porque são as referências que ela tem do que é bonito. Essa influência da mídia, das histórias, das pessoas próximas são muito fortes. Além de que, hoje, as pessoas estão levando fotos delas com filtros de instagram para os cirurgiões e dizendo que querem ser aquela versão dela. É uma tentativa de apagar todas as imperfeições e de fingir que é igual a outra pessoa, pelo contexto todo que ela vive.


Você vê algum avanço em relação a essa questão de pressão estética hoje?

Eu acho que hoje, em 2020, com o próprio movimento feminista e o movimento negro aparecendo mais, essas referências vão ficando um pouco diferentes. Iza, por exemplo, foi eleita uma das mulheres mais bonitas do Brasil, coisa que há anos atrás era impensável porque Iza é uma mulher preta, que não aparenta ter procedimentos estéticos e que se tornou uma referência de beleza. Então, hoje, nós temos mulheres que são gordas e que se orgulham do seu corpo e temos mulheres que são magras e que assumem que fazem ou fizeram procedimentos, não estimulando outras a fazerem, mas dizendo "é isso, eu faço para me sentir bem, você não precisa fazer". O cenário vem mudando e, apesar de a gente ter extremos, nós também temos boas referências. Esse “inalcançável” ainda existe muito, mas estamos, a passos pequenos, construindo outras referências. Eu não posso te dizer o porquê das pessoas fazerem isso, porque é muito particular, mas eu posso te dizer que a saída para isso é o autoacolhimento. Não é a autoaceitação; aceitar é uma coisa que eu não tenho opção. É de autoacolhimento mesmo. Esse é o meu tipo de corpo, existe algo que está impactando na minha vida muito, que faz com que eu me sinta mal, que me impede de ter as minhas atividades normais? Se sim, ok, eu posso pensar em fazer uma intervenção. Mas se existe algo que é meu e que me deixa nessa característica e me deixa nessa característica, por que eu não mantenho isso? Eu preciso começar a me acolher um pouco.


Há aquele processo das pessoas fingirem uma aceitação, também por conta de uma pressão, mas ainda assim continuar incomodadas com algumas características. Isso de alguma forma pode ser prejudicial para essa pessoa?

Sabe aquela metáfora bem infantil de que você vai colocando coisas embaixo do tapete até que uma hora ele fica gigantesco e a casa fica toda suja? Então, quando você finge que aceita algo, e por isso que eu não gosto da palavra aceitação, você vai colocando tudo embaixo do tapete e acumulando isso até chegar um determinado momento em que isso aparece de uma forma muito maior. Tipo, se eu não gosto do meu nariz, mas por conta do discurso de que eu tenho que aceitar o meu nariz, eu não me sinto confortável de falar para as outras pessoas que eu não gosto do meu nariz, porque eu vou ser criticada, então eu fico falando para todo mundo que eu me amo, que eu amo meu nariz, que isso me dá personalidade. Só que, sempre que eu tenho oportunidade, eu escondo ele e vou organizando toda minha vida para fingir que eu aceito ele, porque eu estou gastando uma energia muito grande para agradar as outras pessoas e que faz com que eu não consiga me concentrar naquilo que eu me sinta bem. Eu não consigo medir se ser aceita pelas pessoas me faz sentir tão bem quanto aquilo que me deixaria confortável. Então não ficar presa à expectativa das pessoas e até mesmo não alcançá-las às vezes é necessário. Eu preciso dizer não para alguns padrões, dizer não para algumas pessoas que têm muita expectativa em relação a mim, para que a minha vida flua melhor. O ideal é que a gente seja real e sincero com a gente mesmo e, se por acaso tiver alguma característica que prejudique as nossas relações, o nosso convívio, a gente precisa buscar um atendimento terapêutico, uma ajuda, um psicólogo para falar sobre isso e conversar com alguns amigos, porque buscar uma rede de apoio é muito importante.


Mas não só dessas influências vivem as redes sociais. Hoje em dia há muitos influenciadores e páginas de psicologia que procuram manter um diálogo saudável sobre questões como essa. Como isso ajuda as pessoas?

Esses perfis acabam virando referência. Se eu me reconheço na mídia, vejo que tem pessoas passando pela mesma coisa que eu e usando estratégias diferentes de mim, isso me ajuda. Criar uma rede de apoio é super importante, independentemente de onde essa rede venha se essa rede vem de uma página do Instagram, se vem de um blog, de um movimento de rua, que seja. Se as pessoas se sentirem acolhidas, abraçadas por pessoas que sentem algo parecido com elas e mesmo que não sintam a mesma coisa, mas que acham uma palavra de conforto, seja através da ciência, como é o caso da psicologia, ou através da própria experiência mesmo, tudo isso é muito válido. O isolamento acabou tendo esse fator positivo. O fato das pessoas estarem em casa aumentou a quantidade lives e um investimento maior de profissionais da área de saúde em falar nas redes sociais, se aproximando mais do seu público. Tudo isso facilita que as pessoas tenham acesso à informação e informação é carinho. Quando você se sente informada, você se sente abraçada. Quando as pessoas têm mais informação, elas se sentem mais acolhidas. Quando elas veem outras pessoas falando sobre aspectos que ela gostaria de saber ou que ela tem muita dúvida, isso faz com que elas se sintam melhores. As redes sociais, como tudo na vida, possuem aspectos tóxicos, mas também possuem aspectos libertadores.