• Victor Melo

A Bahia ainda será mística em 2021?

Com o verão se aproximando, algumas incertezas da estação mais esperada do ano começam a surgir



Verão de 2020/2021 não terá a mesma força dos anos anteriores por conta da pandemia | Foto: Marcus Alves / Unsplash

Sempre que o assunto é verão, a Bahia volta a receber o hype de artistas e personalidades da mídia. Nos últimos dois anos, Salvador virou um reduto para artistas de outros estados, que passaram a escolher a capital baiana como cenário principal de suas férias. Entre dezembro e março, as redes sociais ficam cheias de fotos de celebridades com a Bahia marcada na localização e declarações de amor por essa terra "mágica", "mística", "paradisíaca" na legenda.


Há até quem diga que se sente baiano depois de passar as férias por aqui. Ou quem coloca uma música de Caetano Veloso para tocar ao fundo e se declara exotérico. Os não baianos amam se curar em nossas águas, se deliciar com a nossa culinária e, principalmente, postar nossas belezas naturais. Será que isso vai se repetir no verão 2020/2021?


Desde que a pandemia começou, em março de 2020, o movimento turístico por aqui tem sido bem menor do que de costume – e dá para compreender o porquê. Com a segunda onda ganhando força e a falta de informações sobre a chegada de uma vacina, o Carnaval já foi, até então, adiado e o verão é incerto.


Talvez nesta temporada não tenhamos contato com toda aquela "baianidade nagô" que as pessoas de fora tentam assumir quando chegam em nossa terra. Será que esquecerão da Bahia mística e seus encantos? Certamente não. Mas até que seria um alívio perdermos alguns desses estigmas.


Não há como negar que essa romantização soa um pouco incômoda. Afinal, o que os não baianos entendem sobre o nosso estado? Muitos deles parecem enxergar a Bahia como um grande complexo onde, de um extremo ao outro, as pessoas vivem iguais. Isso fica nítido a partir do momento em que do Vale do Capão, na Chapada Diamantina, até a Ilha de Boipeba, a localização das fotos só marca “Bahia”. Eu, particularmente, nunca vi um turista ir a Belo Horizonte e marcar apenas Minas Gerais no Instagram.


Mas é engraçado como o verão da Bahia é diferente para o turista e para o baiano. Culturalmente falando, o verão do baiano hoje está muito mais ligado aos hits populares que normalmente são lançados por bandas de pagode e arrocha, enquanto os turistas chegam aqui com uma impressão “caetanística”, como se tivéssemos a mesma paciência de Caetano e Gil. Quando falamos de Doces Bárbaros, o baiano é muito mais Gal e Bethânia.


O verão para o baiano é um momento de libertação. É o período do ano em que tudo acontece, é o nosso momento. É no verão que acontecem as melhores festas, shows e espetáculos que normalmente não são vistos durante o resto do ano. Até mesmo os ensaios de verão, onde basicamente assistimos às bandas locais, têm um clima diferente. Só quem vive aqui entende.


A questão é que a Bahia de Gabriela, dos Capitães da Areia, que Jorge Amado escreveu não é a mesma de agora, assim como as tardes em Itapuã não são mais as mesmas cantadas por Vinicius. Gabriela deu lugar a Edilenes, Tiffanys, Ritas e as tardes em Itapuã trocaram a Bossa Nova pelo pagodão.


O carnaval de 2021 foi adiado e ainda não há data para a folia acontecer | Foto: Felipe Dias / Unsplash

Isso é perceptível no Carnaval de Salvador. A maior festa de rua desfila axé, pagode, arrocha e tantos outros ritmos, mostrando a pluralidade da música baiana e popular. O Carnaval também costuma ser o ápice do verão, quando é possível curtir a rua, tomar 3 por 5 e colecionar colares do Gandhy. É um momento único, apesar de que a cada ano a rua fica mais cheia e o folião pipoca fica mais apertado pelos blocos.


Esse modelo de Carnaval, inclusive, já é bastante ultrapassado, até mesmo cafona. Os blocos com abadá e corda “privatizam” a festa pública, tirando o espaço de quem não está disposto a gastar mundos e fundos para ir atrás de algum artista. Este ano, por exemplo, se pensarmos na sexta, sábado e domingo de Carnaval, dias com maior concentração de blocos pagos, o circuito Barra-Ondina estava completamente impraticável para quem não estava dentro das cordas.


Infelizmente, devido à pandemia, não dá para esperar que o verão seja o de sempre – “místico”, “mágico” ou simplesmente libertador. O Carnaval já não acontecerá nessa época e teremos que esperar um pouco para bater palmas sincronizadas e cantar Minha Pequena Eva a plenos pulmões. Também não poderemos curtir A Melhor Segunda-feira do Mundo com o Harmonia ou o tradicional ensaio do Cortejo Afro nos largos do Pelourinho. Mas o momento pede um resguardo, para que possamos viver no verão de 2022 o que não conseguimos neste.