• Gabriel Fraga

A produção de conteúdo em meio ao isolamento social

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Jovens influenciadores baianos contam como conseguiram aumentar seus públicos durante o período de quarentena


Instagram, Facebook e WhatsApp têm crescimento de 40% durante pandemia | Foto: NordWood Themes / Unsplash

Pandemia, quarentena, coronavírus. No futuro – não tão distante –, quando olharmos para trás e relembrarmos dos eventos de 2020, essas três palavras assombrarão a memória de todos que estão experienciando este momento. Afinal, tem sido um período difícil que trouxe diversos problemas ao mundo que conhecemos e será impossível tirar coisas boas disso, certo?


Não exatamente. É um fato que o isolamento social despertou diversas questões complexas da vida em sociedade, porém, muitas pessoas encontraram nas adversidades uma chance para se desenvolver. Com o aumento significativo de consumidores nas redes sociais, todos os dias surgem novos criadores de conteúdo nas mais diversas plataformas.


Com a chegada da Covid-19 ao Brasil, Ivan Mesquita (@ivanmesquita1) foi convencido por um amigo a gravar vídeos para as redes sociais conversando diretamente com o público sobre, artesanato, culinária, e outras artes que ele praticava, mas, por conta de ter se mudado e das demandas da faculdade e do trabalho, ele acabou parando.


Ivan Mesquita | Foto: acervo pessoal

Apesar de ter começado recentemente, o estudante de Engenharia Civil garante que sempre teve o interesse em expor a sua arte. “Eu fui chamado para um processo seletivo de um programa de TV de culinária, mas não passei, então eu já estava com esse intuito de ganhar seguidores”, explica Ivan, que também é formado em Tecnologia de Petróleo e Gás.


Hoje com 30 anos e mais de 100 mil seguidores em sua conta no Instagram, o ex-motorista de Uber produz vídeos relacionados à história, culinária e algumas questões sociais, como violência contra a mulher, bullying. Em outubro, ele aproveitou para alertar sobre câncer de mama e possui uma parceria com a Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia (Hemoba) numa campanha para incentivar a doação de sangue e de medula.


Já Carolina Carvalho (@plantacao.de.lavanda) descreve o seu conteúdo como algo inovador, “fora da caixinha”, pois traz assuntos e ensina sobre moda e consumo consciente, bazar e sustentabilidade, algo que, para a designer de moda, é sempre difícil. “Tirar as pessoas da comodidade de um sistema imediatista que vivemos e oferecer propostas mais slow fashion é um desafio”, avalia Carolina.


Para a jovem de 22 anos, produzir conteúdos dentro de casa torna tudo mais complicado, já que antes ela podia mostrar o externo, as movimentações e transformações da moda na rua. Ela cita que até mesmo o fluxo de postagens se torna algo a se refletir, pois precisa conciliar o trabalho com seus momentos de descanso.


Apesar de não ter sido algo planejado, Carolina sempre gostou de passar conhecimentos e ensinar as pessoas a reaproveitar roupas, embalagens e objetos. “Quando percebi que tinha formado um público, comecei a encarar de forma mais séria tudo o que passaria para eles”, explica.


Assim como a designer, Leo Santos (@leosantan_) já criava material para a internet desde antes da quarentena. O rapaz de 22 anos afirma que, apesar de, antes, o seu público ser menor, ele já era aquecido. “Ele aumentou durante a pandemia por conta de uma coincidência, porque eu criei um vídeo que acabou viralizando, o que fez o público crescer mais”, aponta.


Leo Santos | Foto: acervo pessoal

Enquanto ator, Leo caracteriza seu conteúdo como diferente e inovador, trazendo algo voltado para o Candomblé como forma de humor, “isso resume a palavra ‘inovação’”. Segundo o jovem, a ideia surgiu quando ele viu uma peruca em sua laje e refletiu que existem personagens de tudo, como pastoras e mães de família, mas que ele nunca tinha visto uma personagem de uma mãe de santo, para representar as religiões de matriz africana.


“Eu tive um crescimento gradativo, até hoje estou crescendo e ainda pretendo crescer cada dia mais”, afirma Leo. “Não existiu um ‘divisor de águas’, os vídeos foram viralizando e, aos poucos, pessoas que já eram da mídia foram conhecendo, o que me ajudou bastante”, completa.


O “novo normal”


O crescimento do consumo de redes sociais ao redor do mundo é algo perceptível, independente dos debates a respeito dos benefícios ou malefícios que essa prática pode causar. De acordo com estudo feito entre os dias 14 e 24 de março e publicado em abril deste ano pela consultoria Kantar, reunindo informações de mais de 25 mil pessoas em 30 mercados, o WhatsApp, Facebook e Instagram tiveram um crescimento de mais de 40% no uso por pessoas com menos de 35 anos.


Das três, o Instagram é tido como a plataforma mais propícia e comum no surgimento de novos influenciadores. Porém, Rebecca Lyrio, formada em Relações Públicas e especializada em Marketing e Branding pela Unifacs, lembra que essa avalanche de conteúdos durante o período de isolamento social não se restringe apenas a ele, apontando um crescimento expressivo no Tik Tok.


Segundo a professora, nunca se fez tão necessário as marcas estarem presentes neste ambiente de construção de diálogo entre os usuários, "que somos nós", e as marcas de seus produtos favoritos, ou até mesmo desconhecidos, que precisam sobreviver e se manter nesse cenário econômico que ainda é muito instável.


“Com o advento da tecnologia cada vez mais veloz, a gente vem tendo as redes sociais cada vez mais protagonistas dessa construção de diálogo entre as marcas e seus consumidores, os influenciadores, ou creators, foram se tornando mais essenciais nesse processo”, afirma Rebecca.


A profissional de RP usa como exemplo as marcas de grande porte que fazem anúncios na televisão e têm a continuidade de suas conversas nos ambientes virtuais. “Ninguém melhor do que o próprio consumidor para falar sobre os seus produtos, estar falando sobre as ideias que querem transparecer através da marca”, avalia.


Rebecca conta também que hoje é comum as empresas trabalharem com creators de diversos tamanhos, como micro e nano influenciadores, porque é importante criar camadas de diálogo entre as pessoas e as marcas. Dessa forma, temos influenciadores de tamanho nacional e aqueles que conseguem, dentro de sua camada de diálogo, posicionar bem as marcas das quais eles fazem propaganda.


“As marcas começaram a entender que é muito importante, sim, a gente ter uma abrangência maior, mas nas menores comunidades existe muita verdade nos discursos e, às vezes, faz mais sentido você pulverizar essa estratégia de comunicação com 20, 30 influenciadores menores, do que gastar milhões com um influenciador gigantesco que vai ter uma taxa de engajamento talvez não tão grande ou relevante para o seu público”, aponta Rebecca.


Carolina Carvalho | Foto: acervo pessoal

Para Carolina Carvalho, com a pandemia, tudo foi potencializado, principalmente a pressa por novos materiais. “Senti a pressão de criar conteúdos muito maior, antes eu não sentia tanto”, reflete.


Apesar das dificuldades, a designer continua fazendo parcerias, hoje adequadas a um formato mais caseiro, e segue com a produção em sua própria marca slow fashion de vestuário, a @rayzezoficial. “Nela estou à frente de todos os passos e setores. Sou afroempreededora”, declara Carolina.


Adaptado à nova realidade, Leo Santos também continua fazendo parcerias com lojas, sendo algumas presenciais, seguindo todos os protocolos recomendados, ou em sua casa, como ocorre na maioria das vezes.


O jovem afirma que um de seus planos para o futuro é crescer ainda mais. “Quero dar visibilidade para o meu povo de axé, porque a religião de matriz africana merece estar inserida em todos os lugares, desde que haja respeito e carinho para tratar sobre”, reflete Leo.


Já Ivan Mesquita está com um projeto voltado para “visitas nas cidades”, que irá postar esses novos materiais em seu canal no YouTube. “Agora mesmo estou em Canavieiras, então vou produzir um conteúdo aqui voltado para o surf, a culinária e a história dessa e de outras cidades”, explana Ivan.


O universitário diz estar com muitos trabalhos que vão além de seu conteúdo para o Instagram, o qual ele pretende incrementar ainda mais com seu gosto por surf, vôlei, pescaria, forró e muitos outros.


Rebecca Lyrio enxerga uma grande oportunidade para esses micro e nano influenciadores neste momento, pois as marcas realmente estão com um olhar muito atento para essa construção de conteúdo compartilhado com os usuários, trazendo muita verdade no que se fala.


“Obviamente, a partir do momento que as marcas têm um olhar mais cuidadoso para essa camada de influenciadores menores, faz com que eles tenham uma área de atuação maior, tenham mais possibilidades de negócios dentro deste mercado”, aponta Rebecca.