• Catharina Dourado

Da TV ao streaming

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Séries baianas desafiam as problemáticas estatais e buscam espaço nas novas formas de consumo de conteúdo audiovisual


Dirigida pela baiana Júlia Ferreira, a minissérie Sonhadores estreou em julho deste ano | Foto: Ricardo Prado / Divulgação

Toda vez que alguém pergunta como a sua minissérie, Sonhadores, foi parar na Amazon Prime Video, Julia Ferreira explica “olha, eu não tenho esses contatos”. A história começou quando a diretora e roteirista baiana divulgou o trailer nas redes sociais e conquistou a atenção da distribuidora O2 Play Filmes, que apresentou a produção à Amazon. Em julho deste ano, Sonhadores virou parte do catálogo de uma das maiores plataformas de streaming do mundo.


Desde a estreia, Julia e sua equipe tem recebido inúmeras mensagens de apoio e estampado matérias em veículos de comunicação do Brasil inteiro. Antes disso, estar no streaming era apenas um desejo da diretora. “Acho que esse é um sonho para todo mundo que faz série porque as pessoas te veem muito mais, você tem um acesso muito maior. É uma chance maravilhosa”, avalia.


Essa chance, porém, ainda é algo atípico dentro do mercado baiano, pois a maioria das produções originais está locada em emissoras públicas, como a TVE ou a TV Brasil. Também é possível encontrar produtos nas televisões do grupo SBT e canais pagos como Canal Brasil, Curta!, Playkids, ZooMoo e até mesmo a Disney Júnior, como é o caso da animação Turma da Harmonia.


A televisão se tornou uma grande difusora de séries baianas a partir de 2012, quando a lei da TV Paga exigiu um tempo mínimo para a exibição de obras nacionais de produtoras independentes. Com isso, começaram a surgir leis de incentivo para desenvolvimento e produção de conteúdo, possibilitando que as emissoras conseguissem preencher suas grades e impulsionando o mercado do audiovisual da Bahia.


“Produtoras baianas começaram a ganhar editais, formar núcleos criativos, começaram a surgir cursos e eventos formativos. Hoje há um mercado ativo aqui, principalmente de séries documentais e de animação. Já ficção live action, apesar de existirem alguns, ainda é pouco”, explica a roteirista, crítica cinematográfica e professora universitária Amanda Aouad.


O número de produções cresceu ao longo dos anos, contradizendo o mito de que não havia roteiristas no mercado local – o que faltava, na verdade, era experiência para esses profissionais. A cena foi se consolidando ao passo que surgiam demandas e cursos, como a Usina do Drama, que é voltado para formação de roteiristas de narrativas seriadas e promovido pela Estação do Drama, atividade de extensão da Universidade Federal da Bahia (Ufba).


Logo na primeira edição, em 2017, o curso recebeu 140 projetos de série. Este ano, cerca de 200 propostas foram inscritas para disputar as 28 vagas dos workshops de criação de séries ficcionais. Por conta da pandemia do coronavírus, as aulas e tutorias estão acontecendo de maneira remota, e os selecionados já estão reformulando seus projetos de série.


“A previsão é que no início do próximo ano comece o ciclo 2, quando [os selecionados] farão o roteiro do piloto da série. A última etapa será o pitching pedagógico, onde cinco de 28 alunos apresentarão seus projetos a produtoras locais”, conta Aouad, que também é tutora do curso.

Incentivo estatal


Para a produção, muitos projetos de série – e de outros formatos audiovisuais, como curtas e longas-metragens – ainda são dependentes do fomento de órgãos públicos e de instituições privadas por meio de leis de incentivo ou editais. Sonhadores, por exemplo, foi contemplada pelo edital Arranjos Regionais 2016, da Agência Nacional de Cinema (Ancine) em parceria com a Secretaria de Cultura (Secult).


Hunt, do diretor, roteirista e jornalista baiano Eduardo Oliveira, também contou com recursos da Ancine, através do edital Arte na TV Ano II, da Fundação Gregório de Mattos (FGM). A série estreou em novembro do ano passado no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, e em dezembro na TVE.


“O financiamento ainda é menor por aqui (no Nordeste). No Sul e Sudeste, a indústria do audiovisual é mais fomentada e mais organizada, então você consegue produzir com mais facilidade, ainda que seja difícil também. Hoje a gente está muito dependente de editais, o que é um problema porque quando muda as estratégias de governo você fica sem grana para produzir”, avalia Eduardo.


Para o diretor, isso é como um alerta para refletir sobre o atual modo de produzir. “Acho que é preciso criar uma indústria que consiga se gerir, se fomentar a partir de iniciativas privadas e de outros meios de produção, de comercialização e de distribuição para angariar fundos de outras formas que não seja somente via iniciativa pública”, diz.


Indicada ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Hunt tem direção e roteiro de Eduardo Oliveira | Foto: David Campbell / Divulgação

Nos últimos dois anos, a cena do audiovisual brasileiro tem enfrentado dificuldades a nível estatal, com cancelamentos de editais, diminuição dos chamamentos da Ancine e até mesmo um esvaziamento da Lei Rouanet. Em 2019, por exemplo, o ex-ministro da Cidadania Osmar Terra determinou a suspensão de um edital de chamamento de projetos para TVs públicas.


“A maioria das produções ou licenciamentos de séries vem dos Prodavs (Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro), que estão parados desde 2018”, lembra Amanda Auoad. “É um momento bem delicado porque interrompe um processo que vinha evoluindo bem”.


Essa instabilidade aumenta o interesse dos criadores de arte pelas plataformas de streaming, que, por sua vez, têm investido gradualmente em obras nacionais. A Netflix é um grande exemplo desse movimento, se apresentando não só como distribuidora, mas também produtora de séries brasileiras, como Coisa Mais Linda, Sintonia, Irmandade, 3%, Samantha! e a recente Bom Dia, Verônica.


Os streamings têm um modelo de negócio diferente, que favorece o desenvolvimento dessas produções. “Eles não dependem de uma grade estabelecida, então apostam em uma diversidade maior para ganhar no pacote. E com a concorrência, eles precisam, cada vez mais, de conteúdo original. Tanto a Netflix quanto a Amazon estão investindo bastante em conteúdo local e não dependem das leis de incentivo, então facilita o processo”, reflete Aouad.


Sonhadores é um dos exemplos desse investimento, certamente significativo para a cena do audiovisual baiano. O processo de desenvolvimento da minissérie durou sete anos, desde a escrita do roteiro em 2013 até a estreia em 2020, e já abriu portas para a produtora Obacacauê e para Julia Ferreira – como diretora, roteirista e até mesmo atriz.


Ela, então, vê os streamings com bons olhos, ainda que a distribuidora fique com 30% do contrato. “Acho que essas plataformas estão dando mais força ao audiovisual porque nunca houve uma procura tão grande por profissionais do meio audiovisual como agora. Os caminhos se abrem para muitas possibilidades, para gente do mundo inteiro ver você e você ver gente do mundo inteiro. Isso é difusão de conhecimento, de cultura”, afirma.


Depois de estrear na TV e no cinema, correr festivais nacionais e internacionais, e ser indicada ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Hunt também procura um espaço no streaming. Eduardo Oliveira já está pensando na segunda temporada da série, ao mesmo tempo em que conversa com uma plataforma para disponibilizar sua produção.


“O streaming é mais um meio de divulgação, mais um meio de produção, já que muitas plataformas bancam produção, e mais um meio de a gente se comunicar. O alcance das plataformas é muito grande, então você consegue alcançar lugares e pessoas que você nem imaginava”, diz o diretor.


Para Amanda Aouad, o futuro do mercado baiano é imprevisível por causa da pandemia e da conjuntura política do país, mas ela se mantém positiva. “Mesmo em meio a uma crise, a expressão artística sempre foi essencial. Agora na pandemia, estamos vendo filmes, séries e lives se tornando a válvula de escape de muitos, fora o valor histórico e cultural. Temos bons profissionais, pessoas criativas, então acredito que há um futuro promissor apesar de tudo. Vamos observar”, pondera.