• Gabriel Fraga

"Existe um processo de fazer com que os jovens negros não se vejam representados"

A pedagoga Thiffany Odara fala sobre a importância da representatividade para as crianças negras e as problemáticas do racismo estrutural no Brasil


Apenas 6% das bonecas disponíveis no mercado brasileiro são negras | Foto: Mattel

"Procuram-se bonecas pretas, procura-se representação", canta a baiana Larissa Luz em música de sua autoria, lançada em 2016. Bonecas Pretas foi uma forma da cantora, compositora e atriz expor uma das principais problemáticas relacionadas à pessoa negra no Brasil: a falta de representatividade.


Também foi em 2016 que a ONG Avante – Educação e Mobilização Social lançou a campanha "Cadê Nossa Boneca?", que organiza uma rede de bonequeiras ao redor do país. A cada dois anos, os responsáveis pela campanha realizam um levantamento sobre a disponibilização de modelos de bonecas e bonecos negros no mercado.


Em 2020, a ONG lançou o terceiro levantamento do projeto. A pesquisa, analisando os sites de e-commerce de 14 dos 22 fabricantes de brinquedos associados à ABRINQ – Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos, aponta que apenas 6% das bonecas fabricadas no país são negras. Esses números não refletem os 53,6% de brasileiros que se autodeclaram negros, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Thiffany Odara | Foto: Adeloyá Magnoni

A ponta convidou Thiffany Odara, pedagoga, especialista em Gênero, Raça, Sexualidade e Etnia, educadora social e redutora de danos, para falar sobre a falta de representatividade na infância e quais são as principais mazelas relacionadas ao racismo no Brasil.


Mesmo com o crescimento da visibilidade de políticas afirmativas em relação à pessoa negra no Brasil, isso não tem se refletido no mercado de brinquedos, como aponta a pesquisa da ONG Avante. Por que você acredita que isso está acontecendo?

O crescimento de visibilidade não significa que estamos sendo inseridas e inseridos dentro das políticas públicas, dentro dos centros dos debates. Para as pessoas negras, ainda existe um processo de uma representatividade, de uma visibilidade, digamos assim, a nível de dizer que "vou fazer uma novela e vou colocar dois atores negros para dizer que eu fiz, que eu incluí". É uma falsa visibilidade. Não há uma inclusão, não há uma inserção de verdade das pessoas negras nos centros dos debates e nas políticas públicas para a efetivação de combate ao racismo. Existe um processo de fazer com que a criança negra, com que os jovens negros não se vejam representados dentro desse processo midiático, dentro desse processo de se autoperceber. A gente tem o Pantera Negra, mas, se fosse pra ter uma visibilidade ampla, a gente não teria só o Pantera Negra, teríamos outros personagens e outros brinquedos. Eu conheço escritores negros e negras que têm personagens negros, mas que não estão nos centros dos debates, não estão nos currículos educacionais, não estão na mídia. E por que eles não estão?


Qual a importância da representatividade para uma criança negra?

A importância da representatividade é fazer com que o sujeito possa se perceber, se ver, se reconhecer dentro de uma estrutura social que é o nosso país, como pertencente dessa nação. Falamos de um país onde todo mundo diz que todo mundo é um pouco de índio, um pouco de negro, mas esse " um pouco de negro" não insere as pessoas negras nos centros das discussões. Então a representatividade é de suma importância no que tange a fazer com que nos percebamos, que possamos nos ver, nos enxergarmos, porque eu não sou neta de escravos e escravas, eu sou neta de reis e rainhas que foram escravizados por conta de uma barbárie, por conta de uma ideologia eurocêntrica que está estruturada, está engendrada dentro da nossa sociedade.


Como as instituições sociais, como família, escola e Estado, podem interferir neste processo de socialização da criança negra, para que ela possa se sentir parte de uma sociedade na qual não se sente representada?

Eu acho que é preciso ampliar o debate e é preciso incluir, agregar. É preciso, primeiramente, reconhecer que partimos de pontos diferentes, que ninguém é igual a ninguém. Seres humanos são seres plurais. A partir do momento que eu consigo reconhecer, a gente precisa potencializar as diferenças. Eu não posso dizer que eu sou um pouco disso, um pouco daquilo, mas quem sente na pele é a pessoa negra retinta, quem sente na pele é a pessoa que está na periferia. Então é começar a entender que, para além da representatividade, existe um lugar social que precisa ser, de fato, inserido dentro das políticas públicas.


Quais os impactos que a falta dessa representatividade, não só na infância, como em diversos pontos da vida, pode trazer para a autoestima e socialização desses indivíduos?

É o racismo, a inferiorização, a baixo autoestima, a negação de si mesma, reprodução de desigualdade, reprodução de violência, esses são os impactos. Na minha infância eu não tive representatividade negra, eu não me via na televisão. Eu sou da geração de Xuxa, não tinha paquita preta. E eu não posso dizer que Bombom era uma paquita. Foi bom ver Bombom lá, mas não de uma maneira caricata, assim como a Vera Verão, então não havia representatividade.


Existe algo que a tenha ajudado neste processo de autoaceitação e pertencimento?

O que me ajudou foi minha família. Eu sou de uma família negra: minha avó, minha mãe, meu pai, minhas tias, meus tios. Foram meus primeiro líderes formadores da luta antirracista, porque eles sentem na pele a barbárie que é o racismo e eles criaram estratégias de combater o mesmo. Então o que me trouxe para a representatividade foi a imagem da minha mãe, imagem das minhas avós, a imagem de meu pai, que eu sempre tive em minha vida.


Quais você acredita que são os principais problemas no Brasil em relação ao racismo institucionalizado? O que ainda é preciso melhorar e quais as barreiras que dificultam essa evolução?

Os principais problemas do racismo é a falta de política pública, a falta de reconhecer que somos diferentes, o não reconhecimento de privilégios, porque falar de racismo é falar de privilégios, é falar de políticas públicas, é falar de mazelas sociais. Então primeiro a gente precisa pensar em propostas pedagógicas, propostas transversais, articuladas em redes, para o combate do racismo. A saúde, a segurança pública e a educação precisam ser articulados em redes, reconhecendo que existe um processo de limitação, um processo de segregação no país. Isso precisa acontecer através de nosso políticos, através do fortalecimento dos movimentos sociais, pois são eles que nos dão a régua e compasso e ensinam como se deve realmente fazer para que isso possa acabar.