• Victor Melo

Juventude nas urnas

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Jovens concorrentes ao legislativo soteropolitano anseiam mudanças e encaram desafios em campanhas políticas


Jovens tentam uma vaga para o legislativo soteropolitano | Foto: Fábio Pozzebom / Agência Brasil

A cada quatro anos nos deparamos com uma enxurrada de candidatos a vereador pelas ruas, redes sociais, televisão etc. Este ano, 1.584 submeteram a candidatura para concorrer às 43 vagas na câmara de vereadores de Salvador. Apesar do crescimento do número de candidatos em relação à eleição anterior, muito pouco mudou no perfil dos concorrentes. Mais de dois terços desses candidatos são homens e, segundo levantamento feito pelo CORREIO, a maioria possui idade entre 40 e 50 anos.


Muito se fala em renovação, em deixar a velha política de lado, mas ainda é difícil de entender o que de fato é essa nova política, já que cada candidato tem uma percepção, que varia de acordo com o partido ou posicionamento político com a qual se identifica. O que podemos afirmar é que a maioria dos candidatos que usam do discurso de uma nova forma de fazer política são os mais jovens.


Dentro da casa dos 20 e poucos anos, ainda não são muitos que estão na corrida para o poder legislativo municipal, mas os que estão garantem estar prontos para encarar esse desafio e trazer cada vez mais jovens para a política.

Rodrigo Bolha | Foto: Divulgação

Ao perceber uma descrença por parte dos jovens na política, Rodrigo Bolha (PSDB) decidiu se candidatar a vereador aos 20 anos. Para o candidato, ainda não há alguém que represente os anseios da juventude na câmara. “Hoje, na nossa câmara de vereadores, que é o segmento da sociedade que representa os cidadãos, nós não temos representante do público jovem, como eu represento: que não tem herança política e que não representam a passagem de bastão”, reflete.


Rodrigo está tendo que lidar com a descrença, por conta da pouca idade, durante sua campanha. Para ele, muito disso vem atrelado à formalidade clichê do político que se apresenta com terno e gravata e muitas vezes não consegue dialogar com a população. Ele acredita que não precisa estar dentro desse clichê para legitimar seus projetos e ideais, e defende que “nós não precisamos ser formais para sermos sérios”.


Trazer a sua história como forma de se aproximar com o eleitorado é uma estratégia usada por muitos políticos para conquistar votos. Há quem acredite que essa é uma tática que só pode ser usada por concorrentes mais velhos, visto que esses viveram mais.


Brenda Cruz (PMN), candidata mais nova a concorrer ao cargo de vereadora, não concorda com essa lógica e usa da sua trajetória de vida para mostrar que tem capacidade para legislar para o povo. Aos 19 anos de idade, Brenda afirma que a sua história diz que tipo de vereadora será para Salvador caso seja eleita.


Brenda Cruz | Foto: Divulgação

Vinda de invasões e bairros periféricos de Salvador, escola pública e órfã de mãe, a candidata acredita que, diante dos obstáculos que já enfrentou na vida, “os problemas que eventualmente aparecem [na trajetória política] são pequenos”. Para ela, a idade não é um problema, já que muitos dos atuais vereadores possuem anos na política, mas não ajudam a sanar os problemas da cidade. “Nossa idade não diz muita coisa, tem candidatos com muitos anos de experiência e a única coisa que fizeram foi legislar em causa própria. Você olha os projetos de lei propostos por eles, não passam de leis que os beneficiam”, critica Brenda.


Recepção


Apesar de estarem mais próximos dos eleitores mais novos, a recepção que eles estão tendo por parte da população em geral está sendo muito boa. Mas, para cativar o público com mais idade e mostrar o compromisso com o trabalho, esses jovens candidatos precisam traçar estratégias.

Ana Rosa | Foto: Divulgação

Fundadora de um projeto social voltado para cuidar de pessoas idosas, Ana Rosa (PDT) tem apreciado o acolhimento que vem recebendo nas ruas e conquistar a confiança das pessoas com quem dialoga é o seu principal objetivo. Ela aposta nos resultados obtidos pela sua ONG para passar credibilidade ao eleitor. “Mostro que eu não preciso da política, necessariamente, para fazer política. Mas que dentro da câmara, dentro desse universo municipal, eu posso fazer muito mais do que eu já faço”, explica Ana.


Victor Aicau (UP) acredita que a recepção da população vai muito de como o candidato se posiciona e do seu discurso. Militante de causas sociais, ele pensa que não é a faixa etária que define a acolhida para os candidatos, mas sim como as pessoas pensam. “Existem pessoas de 40 anos com a cabeça de uma pessoa de 15 ou 20, e pessoas de 20 e poucos anos que são muito mais entendidas. Por ser jovem, a maioria das pessoas nos olham com bons olhos porque sabem que precisa de uma renovação”, conta o candidato de 25 anos.


O currículo é a aposta de Erick Justo (PDT). Aos 21 anos, ele conta com algumas experiências que considera bem vistas pela população e, a partir disso, apresenta o seu programa. “ Eles

Erick Justo | Foto: Divulgação

[a população] estão zangados com a situação atual e eu também estou. Por conta disso estou me candidatando, apresentando de onde tirei as informações para montar o projeto e qual respaldo eu tenho para apresentá-lo”, explica Erick.


Mas o que acontece nas ruas nem sempre é refletido dentro do âmbito político. Para alguns desses novos candidatos, o mais complicado é passar credibilidade para os concorrentes mais experientes. Júnior Reis (PSL) destaca que muitas vezes os jovens só são apoiados para serem lobby, reforçando que a juventude ainda é descredibilizada e que faltam oportunidades para os mais novos. “Todo mundo cobra experiência, mas ninguém quer dar experiência”, afirma.


Ana Rosa (PDT) observou essa resistência por parte dos partidos. Segundo ela, a visão que eles possuem é de que esses jovens são “pequenas ameaças, mas peixinhos pequenos em que eles podem pisar e acabou”.


Problemas municipais


Dentre as maiores insatisfações desses candidatos com a situação atual da cidade, está a falta de emprego. Essa insatisfação é justificável, já que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Salvador ficou, no primeiro trimestre deste ano, como a capital com a segunda maior taxa de desocupados. Para o candidato Erick Justo (PDT), emprego e renda são a grande “chaga” da capital baiana e políticas públicas precisam ser pensadas para sanar esse problema.

Júnior Reis | Foto: Divulgação

A falta de oportunidades para as pessoas conseguirem o primeiro emprego é uma das problemáticas levantadas por Júnior Reis (PSL). O candidato aposta em projetos que possam beneficiar os jovens e os empregadores, de forma que, cada vez mais, esses empregos sejam gerados na cidade. “Se a gente gerar empregos nos bairros, isso vai aquecer a economia e melhorar a condição dos moradores daquela localidade”, afirma Júnior.


Brenda Cruz (PMN) também vê na geração de empregos uma forma de evitar que os jovens procurem a criminalidade. “O jovem precisa trabalhar, isso é urgente para evitar a entrada do deles no mundo do tráfico de drogas, porque não tem de onde tirar seu sustento”, pontua.


Além do desemprego, a mobilidade urbana de Salvador também é alvo de críticas dos candidatos. A falta de opção de linhas de transporte e o tempo que o soteropolitano passa no trânsito foram problemas apontados pelos candidatos.


Ana Rosa (PDT) destaca também que a cidade precisa investir em mais profissionais qualificados, ao invés de trabalhar com indicações, que em alguns casos levam a uma má gestão dos aparelhos públicos. “Muitos dos problemas que a gente tem é por falta de administração. O maior pecado que cometemos aqui é não colocar pessoas capacitadas para administrar esses órgãos públicos”, aponta a candidata.


Participação política


De acordo com o Censo Demográfico do IBGE de 2010, a população jovem (15 a 24 anos) era de 468.110 habitantes, representando 17,5% da população da cidade. Em pesquisa realizada pelo Datafolha em 2018, 29% das pessoas entre 16 e 25 anos pensavam em disputar uma eleição, o que mostra que, cada vez mais, os jovens clamam por participação na política.


Uma política inclusiva, mais participativa e ouvindo mais o povo é um desejo desses jovens candidatos. Júnior Reis (PSL) vê o mundo em constante mudança e, por isso, acredita que a população precisa estar em frequente acesso à câmara. “As pessoas precisam ter acesso ao mandato, cobrar e caminhar junto”, justifica.


Já Brenda Cruz (PMN) deseja criar um “multi-identitário com vários representantes de várias correntes políticas, sociais e religiosas na construção de uma cidade mais humana para quem vive nela”, diz a candidata.


Para Rodrigo Bolha (PSDB), a descrença com a política atual é a principal questão pela qual a juventude ainda tem uma pequena participação na política. “Os jovens possuem causas e defendem bandeiras, mas, cansados com essa política, eles vão deixando isso cada vez mais de lado”, pontua.


A ida às ruas para fazer campanha também já está mostrando que a juventude não está mais aceitando o voto como moeda de troca. A candidata Ana Rosa (PDT) afirma ter se deparado com pessoas que ainda acreditam nessa “velha política”, mas que “a juventude não permite mais isso, esses ganhos ilegais”.

Victor Aicau | Foto: Divulgação

Apesar de falarmos em renovação e de candidatos jovens, Victor Aicau (UP) afirma que “não adianta nada votar em uma pessoa que seja jovem e que sirva aos mesmos interesses dos caras que ocupam esses cargos há 20, 30 anos”.