• Victor Melo

Match em meio a quarentena

Pessoas passaram a usar os aplicativos para conhecer gente nova e distrair a mente durante a tensão da pandemia


O uso de aplicativos de encontros disparou durante o início da quarentena | Foto: Yogas Design / Unsplash

Mais pessoas em casa, bares e boates completamente vazios. Essa foi uma realidade que assolou grande parte deste ano. A pandemia forçou uma mudança de convivência, afetando todas as esferas de convívios sociais, das amizades às relações amorosas ou sexuais. Todos os tipos de paqueras que aconteciam em clubes noturnos, barzinhos e até mesmo na rua foram praticamente extintos durante alguns meses. Mas, como ninguém – ou quase ninguém – é de ferro, essa tensão precisava ser liberada e foi assim que os aplicativos de namoro e paquera passaram a ser usados por mais pessoas.


De acordo com o Tinder, no dia 29 de março, alguns dias após o início do isolamento social no Brasil, o aplicativo registrou três bilhões de swipes (o gesto de deslizar a foto do pretendente demonstrando interesse ou não) no mundo, maior marca diária registrada pelo app. Concorrente do Tinder, Bumble também registrou um aumento de 16% nas mensagens trocadas no aplicativo entre março e maio. Apesar do grande número de usuários, muita gente ainda se pergunta o que as pessoas estavam fazendo nesses apps, já que não poderiam se encontrar durante a pandemia.


Estudante de Medicina Veterinária, Karol Magalhães já tinha o Tinder instalado em seu celular no período anterior à pandemia, mas foi o tédio do isolamento que fez com que ela usasse mais o app. “O objetivo era conhecer umas pessoas interessantes ali para me distrair, conversar e quem sabe marcar alguma coisa para depois da quarentena”, explica a estudante, que não chegou a encontrar nenhum dos rapazes com quem conversou nesse período.


Pedro* também tem uma relação de longa data com o Tinder, que vem de antes da quarentena, mas que tem seus altos e baixos. Ele tende a enjoar do aplicativo, mas acaba voltando para se distrair. “Sempre fui do tipo que usa por três dias, apaga por 15 e baixa de novo”, explica.


Diferente de Karol, Pedro* aceitou um dos vários convites que recebeu para se encontrar com alguém. Segundo ele, o encontro demorou seis meses para acontecer e só aconteceu porque ele “já o conhecia de vista antes da pandemia e tinha um crush forte nele, aí a gente deu match no meio da quarentena”.


Protocolos de segurança (na medida do possível)


Apesar de ter saído de casa, Pedro* tentou seguir ao máximo todas as medidas de segurança possíveis para evitar o contágio. Foram para um restaurante que estava seguindo os protocolos de higiene e distanciamento social, além de usarem máscara até a refeição chegar, o que acabou impedindo que acontecesse aquilo que é esperado de um encontro. “Nem um beijinho rolou porque a máscara não deixava”, conta.


Após uma desilusão com um cara com o qual se relacionava, Ana Dias resolveu usar um aplicativo de paquera para encontrar novas pessoas e deixar no passado aquele relacionamento mal resolvido. A estratégia deu certo e a estudante de Direito conheceu um rapaz por quem teve muito interesse.


Para se encontrarem durante o isolamento, as pessoas adotaram medidas de higiene | Foto: Freepik

Após meses de conversa e pesquisar sobre a vida do “pretendente” com alguns conhecidos em comum, Ana resolveu encontrá-lo. “A vontade era tão grande que eu não pensei tanto na situação de pandemia, mas o encontro só foi possível porque ele morava sozinho e estava trabalhando remotamente. Isso me deixou mais segura”, explica.


Para Neto Santos, o uso dos aplicativos é uma forma de lidar com a carência e o tédio. Durante o isolamento social, ele recebeu duas pessoas em sua casa para encontros sexuais depois de explorar o Grindr, Tinder e Blued. Um dos encontros foi motivado por "muitas sensações e a necessidade de algo autodestrutivo para terminar a semana". Já o outro, além do cara ser bonito, também era tatuador, mas o pós-encontro não aconteceu como Neto esperava. "Ele parou de falar comigo", lamenta ao lembrar que ficou sem um desconto para a próxima tatuagem.


Neto também pedia para que os seus parceiros usassem máscara até chegar a sua casa, para não entrarem na casa com sapatos e para higienizarem as mãos. “A gente tenta seguir o mínimo das recomendações pelo menos”, afirma.


Paqueras mundo afora


Como uma das medidas tomadas para entreter ainda mais seus usuários, muitos aplicativos disponibilizaram recursos para que pessoas de cidades, estados e até mesmos países diferentes conseguissem conversar e interagir. Antes a possibilidade só estava disponível para os usuários que pagavam pelos aplicativos.


A função foi muito útil para Luana Machado, que mora nos Estados Unidos, mas pretende viajar assim que possível. “Eu utilizei o modo viagem do Bumble e conheci um cara da Escócia. Eu já tenho planos de ir para o Reino Unido quando a pandemia acabar, então talvez eu o encontre”, explica.


Luana também percebeu que durante a quarentena as conversas passaram a ter um certo “padrão para começar”. Nas experiências que teve, a abordagem sempre começa com um “oi, tudo bem? Como você está indo com a pandemia? Já assisti todo o catálogo da Netflix.”


Karol usou do recurso do Tinder para ter conversas com pessoas da França, Estados Unidos e Canadá, mas não foi muito caloroso como acontece com as pessoas do Brasil. “A forma das pessoas de fora de conversar parece muito mais formal e geralmente o papo não flui”, conta. Sem ter dado certo com alguém do exterior, Karol conheceu um cara muito interessante em Salvador mesmo e só está esperando a volta da normalidade para encontrá-lo.


Quem não usou muito o recurso foi João Vitor, que preferiu focar a sua energia para aquelas pessoas que estavam geograficamente mais próximas e poderiam vir a ser contatinhos para aquele momento. Morador da região da Linha Verde, ele afirma que a cidade dele nunca parou com o movimento nas praias e no comércio.


Depois de quatro meses em casa usando o aplicativo apenas para conversar, João começou a sentir falta de “um beijinho, um carinho, um afeto” e então decidiu ir para o seu primeiro encontro. “Foi com uma pessoa que mora próximo à minha casa, marcamos para um horário que a rua estivesse sem movimento, para não me expor em nenhuma aglomeração”, diz.


Hoje, nove meses após o início da pandemia, João já se sente mais confortável para encontrar pessoas para se relacionar. “As coisas começaram a abrir, meu estágio voltou, eu passei a ter que pegar ônibus lotado todos os dias. Mesmo me cuidando, estou exposto, como as outras pessoas estão. Querendo ou não, isso dá uma certa tranquilidade para encontrar outras pessoas”, explica.


**Pedro é um nome fictício para preservar a privacidade da pessoa citada, a pedido dela