• Catharina Dourado

Nova era da moda baiana

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Marcas e estilistas baianos apontam para um novo movimento na moda:  independente, socialmente engajado e sustentável


A Dendezeiro une paixão pela moda e um propósito social de naturalizar a presença de pessoas negras na indústria | Foto: Divulgação

Mais que a Cidade da Música, Salvador tem solo fértil para muitos talentos. Aqui, ferve uma cena de moda que tem fôlego para criação e sede por um novo momento: pretos nas capas de revista, corpos gordos e trans nas passarelas, produção em slow fashion e sustentável. Aqui, se encontra uma profusão de estilistas, como Isaac Silva, Goya Lopes, Ismael Soudam, Aládio Marques e Carol Barreto, e marcas, como Boah, Soul Dila, Crioula, Munira, Dugueto, Zyper e Dendezeiro.


De início, a Dendezeiro era um brechó online que se chamava Noo Stilo. Os criadores Hisan Silva e Pedro Batalha faziam a curadoria, upcycling e customizações de peças garimpadas por Salvador, montavam editoriais e vendiam — até que decidiriam desenvolver uma marca de roupa mais autoral. Juntos, então, estrearam numa festa da Batekoo.


“Depois dessa coleção experimental, a gente não voltou a fazer garimpo de brechó e decidiu que a gente queria trabalhar com moda dessa forma, desenhando e desenvolvendo nossas próprias peças. É daí que surgiu a Dendezeiro, em 2019”, lembra Batalha.


Comandada pelos dois estilistas negros e periféricos, a Dendezeiro une a paixão pela moda e um propósito social de naturalizar a presença de pessoas pretas dentro da indústria. Ao colocar modelos negros para protagonizar suas coleções, os criadores assumem um posicionamento político, uma luta por representatividade e uma busca pela autoestima da população.


“A marca sempre trabalhou com casting negro porque a gente entende que esse é um público totalmente marginalizado no mercado e que o nosso empenho é para que as pessoas comecem a se acostumar com a presença desses modelos nas passarelas. O mundo fashion acaba sendo muito exclusivo nesse sentido”, reflete Pedro Batalha.


Hoje, um ano depois de lançada, a Dendezeiro integra o line-up da Casa de Criadores, uma das maiores catalisadoras de estilistas brasileiros. O convite veio do próprio idealizador do evento, o jornalista André Hidalgo, e se estendeu para que os baianos agregassem a Célula Preta, um núcleo que une estilistas negros da Casa e pretende discutir formas de inclusão no evento.


“A Casa de Criadores é, para mim, um dos eventos mais importantes de moda no Brasil porque é um espaço que abraça a diversidade. A gente sente o reconhecimento do nosso trabalho e se sente confortável de estar do lado de outros estilistas que pensam igual a gente”, conta Pedro Batalha.


O estilista, modelista e costureiro conta que, dentro da Casa, a expectativa é que as pessoas consigam entender a mensagem por trás de cada peça de roupa. “Nossa responsabilidade é apresentar para as pessoas aquilo que a gente fazia a um nível mais estadual e municipal. Então a gente mantém nossas raízes, nossas perspectivas, nosso casting, nosso conceito”, conta.


Pedro Batalha para Dendezeiro | Foto: Divulgação

Pensando nisso, a Dendezeiro está preparando um filme de lançamento da próxima coleção, para ser exibido no mês que vem. Nele, a marca trabalha com um conceito de “romper o processo da sobrevivência para começar a experimentar cada vez mais o processo da existência”, cruzando ancestralidade com o universo fashion e contemporâneo.


“É um filme que tem uma demarcação racial e territorial muito forte e passa uma mensagem de potência, de existência, de corpos negros, de culturas de matriz africana, que são coisas imprescindíveis de onde a gente mora. Salvador é a cidade mais negra fora da África e representar alguma coisa diferente disso não seria a verdade”, afirma Batalha.


Do Nordeste de Amaralina, a Vivao Project é outra marca que está organizando um vídeo para apresentar na Casa de Criadores em novembro. Com outros cinco estilistas de Salvador, Vivao – ou Alexandre Francisco – junta trabalhos com crochê, pintura, resgate de peças, tecidos e upcycling na coleção Ancestralidade, Arte e Futuro, que coloca ideias de minimalismo e maximalismo sob uma perspectiva social.


“Salvador tem um maximalismo na forma de se comportar, de falar, de se expressar. A gente tem um maximalismo, muitas vezes, na forma de se vestir. Tem todo um maximalismo geográfico também. Isso nasce de um processo muito mais orgânico, mas depois vai para a Farm ou para alguma dessas lojas que conseguem pegar o conceito da Bahia e mudar. A gente quer mostrar o conceito real”, conta Vivao.


Para o estilista, existe uma preocupação de ver quais são as necessidades de onde mora, para levar visibilidade aos artistas locais e tentar fortalecer a cena. “Quanto mais a gente tiver artistas que vão, que voltam e que abrem espaço aqui, acho que a gente vai ter uma indústria de moda com muito mais qualidade no futuro”, avalia.


Vivao aposta no uso da tecnologia em favor da moda, principalmente durante a pandemia do coronavírus. Com o isolamento social e a suspensão de muitas atividades no Brasil afora, o constante trânsito Nordeste-Sudeste precisou cessar e a proximidade com a internet se fez cada vez mais forte, possibilitando trocas culturais e divulgação de outros artistas. Aproveitando que não é mais necessário estar em São Paulo, por exemplo, para fazer um desfile.


“Até então foi e é assim: a maioria dos estilistas que conheço de Salvador teve que ir para São Paulo para trabalhar com marca de outras pessoas e empresas ou para trabalhar para si próprio. Já é meio um movimento ancestral. Mas eu consigo observar um novo horizonte”, diz.


Microempreendedores


Acessórios Billion Vibez | Foto: Divulgação

É na internet – mais especificamente em redes sociais como o Instagram – que muitas lojas e projetos de moda têm surgido. Assim como Pedro Batalha, Hisan Silva, Vivao e outros estilistas baianos, Ilana Pêpe aproveitou o ambiente virtual para materializar sua paixão pela moda em uma marca, a Billion Vibez, e vender peças de vestuário e acessórios.


Tudo começou quando Ilana cansou do que encontrava nas demais lojas, das peças que não a satisfaziam ou que não atendiam as suas expectativas, e passou a produzir o que queria consumir. A partir daí, surgiu o interesse de outras pessoas em usar o que ela estava usando e ela percebeu que havia uma possibilidade daquilo se tornar um produto. “Foi aí que realmente resolvi criar uma marca, uma identidade visual, uma estética para comercializar os meus produtos”, lembra.


Agora, há três anos em atividade, a Billion Vibez trabalha com peças sob encomenda e feitas à mão em um processo extremamente orgânico e artesanal. A própria Ilana produz peças - que vão desde croppeds e calças a chockers, body chain e hand chain - e replica os modelos em qualquer tamanho para quem se interessar.


“Costumo dizer que tenho uma equipe muito grande de fotografia, edição de foto, modelo, edição de vídeo, direção de produto, direção de marketing, mas todas essas pessoas sou eu mesma. Eu compro produto, crio produto, costuro, faço entrega, faço as embalagens, comercializo, entro em contato com cliente, fecho a venda”, explica.


Para a produtora, o maior desafio de empreender em Salvador é encontrar matéria prima ideal. “Muitas vezes a gente não encontra o material aqui em Salvador para criar o que a gente pensou. Isso limita muito a criação do soteropolitano e desmotiva, mas a gente lida com isso, tem jogo de cintura, consegue fornecedores fora de Salvador para não deixar a peteca cair”, conta.


EVOL, coleção Delirare | Foto: Vinícius Lima / Divulgação

Idealizador da EVOL, Caio Sampaio também enfrentou desafios para encontrar material em Salvador com preço acessível e qualidade. Quando finalmente encontrou um fornecedor de estamparia que atendesse aos critérios, fechou uma parceria, mas nunca recebeu os testes e perdeu não só a matéria prima, como os R$ 200 investidos. “Isso é uma coisa que nem todo mundo imagina, é um perrengue real”, diz o publicitário.


A EVOL entrou em atividade em fevereiro deste ano, mas é um projeto que existe desde que Caio entrou no curso de Publicidade e Propaganda, quatro anos atrás. De lá para cá, a marca ganhou um propósito, lançou uma coleção experimental, arranjou outros fornecedores, parou durante a pandemia e está voltando com novas peças.


“Eu quero retratar o lifestyle soteropolitano que não é o lifestyle que todo mundo vende como soteropolitano, mas, para isso, eu precisava ir para rua. Um dia, eu estava chorando no quarto porque queria ir para o Pelourinho e sair com meus amigos para dançar. Comecei a desenhar um monte de gente dançando e saiu a primeira estampa, Ritmo, da nova coleção Delirare”, relata.


O lançamento está previsto para o fim de novembro e, para isso, a EVOL está preparando uma e-commerce, como uma forma de alcançar o público e difundir a produção. “É muito difícil, principalmente, para quem é micro. A gente trabalha com o que tem e faz mágica. A gente faz mágica porque consegue entregar bolsa, roupa, acessórios com mão de obra reduzida e com uma verba extremamente curta”, conclui.