• Catharina Dourado

“Não há uma política pública efetiva para as artes”

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Em entrevista à Ponta, o dramaturgo Gil Vicente Tavares conta detalhes do Prêmio Braskem de Teatro deste ano e reflete sobre o futuro da arte teatral na Bahia

Vermelho Melodrama venceu duas estatuetas do Prêmio Braskem 2020 | Foto: Patrícia Almeida / Divulgação

Para a 27ª edição do Prêmio Braskem de Teatro, o palco do Teatro Castro Alves (TCA) teve que ser substituído pelos estúdios da TVE. A cerimônia aconteceu no último domingo (18) e adotou um formato de programa televisivo para premiar as melhores peças e equipes do teatro baiano – que se mantém vivo, à sua maneira, em tempos de isolamento social.


A pandemia do coronavírus pediu uma reinvenção às artes e, naturalmente, à premiação. Sem plateia, aglomeração de elenco, beijos ou abraços, a cerimônia deste ano contou com apenas dois apresentadores, os atores Denise Correia e Marcelo Praddo, na frente das câmeras para um encontro virtual transmitido pela televisão e pelo Youtube.


Nas telinhas, os dois revelaram os títulos de destaque do teatro de 2019: Vermelho Melodrama, Holocausto Brasileiro, Sonho de uma Noite de Verão na Bahia, Última Chamada, Das "coisa" dessa vida e Sarauzinho da Calu. Entre uma categoria e outra, Correia e Praddo exploraram o tema “A história do teatro em tempos de exceção e a relação com o tempo atual”, sob a direção artística do dramaturgo Gil Vicente Tavares.


Após a cerimônia, em entrevista à Revista Ponta, Gil pôde refletir sobre o formato do Prêmio Braskem deste ano, a desesperança artística durante a pandemia, o fechamento dos equipamentos culturais em Salvador e o futuro do teatro da Bahia.


Gil Vicente Tavares | Foto: Ricardo Prado / Divulgação

A cerimônia ganhou um formato inédito de programa de televisão. Como surgiu essa ideia?

A gente estava com uma ideia para a premiação desde janeiro. Já tínhamos feito a apresentação de como seria o espetáculo, que já tinha sido aprovado pela Braskem e tudo. Só que a pandemia chegou e, obviamente, paramos tudo. A gente não fazia ideia de para onde iria essa pandemia e ficava naquela coisa de "será que volta em junho? Será que volta em julho?". Quando vimos que a coisa foi se agravando, ficou bem claro para todo mundo que este ano, provavelmente, os teatros não voltariam e aí a gente conversou sobre como fazer isso virtualmente. Já tínhamos uma parceria com o Irdeb [Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia] pré-programada, que sempre filma o Prêmio Braskem, e começamos a discutir o formato. Aí eu falei: "olha, qual é o sentido de fazer num teatro se a gente tem o estúdio do Irdeb? Por que a gente não faz logo no próprio estúdio, já que não vai ter plateia? E outra coisa: ao invés de inventar uma coisa híbrida, por que não assumir logo um programa de TV para a premiação?". A ideia foi aprovada e aí partimos. Todo ano a gente tem um tema, homenageados, alguma coisa que vai conduzir o espetáculo. Nas conversas, eu falei: "todo mundo está discutindo a pandemia, por que não a gente falar sobre o estado de exceção que aconteceu ao longo da história? Mas de uma forma propositiva e otimista, mostrando que, em outros períodos, o teatro também ficou parado e voltou mais forte, mais bonito, mais intenso”. A gente sempre voltou das interrupções com mais fôlego, mais gás por novas criações. Eu senti que tinha muita gente numa energia meio para baixo, então eu quis transmitir que a gente já passou por coisas piores e deu a volta por cima.


Você disse que estava planejando a premiação desde janeiro, mas, ao longo do tempo, as coisas tiveram que mudar. Como foi o processo de desenvolvimento da cerimônia, dentro dos protocolos de saúde contra o coronavírus?

O trabalho foi todo remoto. Não houve nenhum encontro presencial, com exceção de alguns ensaios que eu fiz no estúdio, mas todo mundo estava de máscara, com álcool em gel na mão e distanciamento dentro da cena, então tudo dentro do protocolo. Eles [os apresentadores] só tiraram as máscaras para a apresentação porque fizeram o teste e foram negativados, mas todo mundo continuou de máscara dentro do estúdio. Não só foi uma exigência correta da Braskem – claro, uma empresa tem que ter sua preocupação com a própria imagem –, mas de nós mesmos. Ninguém quer pegar essa doença. Então o processo foi todo virtual, a gente fez leitura do roteiro de modo remoto, Luciano Bahia me mandava as trilhas pelo WhatsApp, Dayse [Porto] me mandava os vídeos. Ela foi fundamental, meu braço direito. E eu nunca tinha dirigido um programa de TV – gosto sempre de ressaltar porque, em termos de crescimento pessoal e profissional, foi uma experiência incrível, bem diferente para mim. Tive a sorte de contar com toda uma equipe incrivelmente disponível e disposta para o que der e vier.


Então a premiação deste ano, certamente, foi diferente de tudo que vocês fizeram nos anos anteriores.

O formato foi inédito mesmo. O máximo que já aconteceu foi uma cerimônia que usou muito vídeo e coisas visuais, mas no Teatro Castro Alves, com as pessoas subindo no palco para pegar o troféu. Dessa vez, as pessoas entraram online para fazer o agradecimento e a Caderno 2 Produções vai depois entregar, na casa de cada um, o troféu para os vencedores. Quando a cerimônia é no TCA, não tem como colocar os indicados para falar porque o tempo é outro, então eu quis aproveitar que a gente estava na TV para dar um pouco mais de destaque aos indicados. Foi uma forma de todo mundo ver os artistas baianos aparecendo na tela. Nesse palco também colocamos apenas dois apresentadores, para não ter risco de contaminação, mas uma coisa que sempre aconteceu no Prêmio Braskem é a famosa aglomeração de elenco. Então lembrei da canção Na Carreira, de Chico [Buarque] e Edu Lobo, que é belíssima e diz "Ir deixando a pele em cada palco / E não olhar pra trás / E nem jamais / Jamais dizer adeus". É uma mensagem de que o artista vai de palco em palco e nunca diz adeus, porque está sempre voltando. Então a gente convidou artistas, atores e atrizes para cantar essa canção de forma dividida, mas colocando-os na tela, fazendo brincadeiras, cantando, dançando, se divertindo, para de certa forma inserir essa aglomeração maravilhosa que é a formação de elenco de um espetáculo e inserir essas pessoas na premiação, dando um cachê e trazendo-os para a tela.


E qual foi o sentimento de trabalhar nesse novo formato? De ver a premiação tomando um rumo diferente, mas ainda assim estando ativa?

Trabalho... você já falou uma palavra aí que é importante, que eu não posso dizer que não. Para mim, foi importante estar ali, trabalhando, porque a gente parou. Meu caso só não foi mais grave porque eu sou professor universitário, mas tinha muita gente que estava passando por necessidades mesmo. Tem artistas que estão em situações complicadas porque a Lei Aldir Blanc está demorando demais para acontecer, então uma coisa que era para abril parece que só vai sair a partir de agora, em outubro ou novembro, o que é uma loucura. Parece que o artista não tem que comer. Enquanto isso, o governante ganha seu salário mensal tranquilamente e atrasa quase seis meses, às vezes um ano, o pagamento do Carnaval. Mas, independente disso, o Prêmio foi importante porque é um trabalho e é bom para a cabeça, porque é muito triste ver as peças todas paradas. A Braskem e a Caderno 2 não desistiram do prêmio, então as pessoas apareceram na tela, deram entrevistas, vão ganhar sua grana da premiação. Então, pelo menos, para nossa cadeia produtiva e economia da cultura, é uma espécie de alento poder ter uma situação como essa. Um conforto mínimo de frente a tudo que está acontecendo.


Foi pensando nessa ideia de conforto e esperança que vocês escolheram o tema deste ano?

Eu quis mostrar isso para não ficar todo mundo preocupado. As pessoas estão muito apreensivas. E o que eu acho absurdo é que a gente libera boteco, mas o teatro "não pode, é perigoso". Quer dizer, há um descaso muito grande em relação às artes, que é um reflexo do país que a gente vive. Não tem uma preocupação em suprir as necessidades dos artistas e nem em pensar na volta do teatro. Deixa o teatro voltar por último porque o povo quer tomar cachaça, quer ver o futebol – que já estão querendo liberar. Temos que admitir que não somos importantes para esse Brasil porque a arte faz as pessoas pensarem, provoca as pessoas e desloca as pessoas da sua zona de conforto, e as pessoas não querem isso. A gente está num momento em que os governos estão querendo colocar pastor e militar para tomar conta da cultura. São pessoas que, com todo respeito, são anticultura, se a gente for analisar numa perspectiva histórica.


E essa é uma crise que a gente já acompanha há um tempo. O Teatro Vila Velha e o Balé Folclórico da Bahia, por exemplo, abriram campanhas de financiamento coletivo para se sustentar. Você acha que a pandemia acabou intensificando essa crise?

Acho que a pandemia simplesmente escancarou uma coisa que já era óbvia: não há políticas públicas para as artes no Brasil, na Bahia e em Salvador. Existe uns tapa-buracos de editais que se lançam aqui, que se lançam acolá, mas uma coisa é você lançar um edital, outra coisa é você dar uma verba. Por exemplo, a verba da Aldir Blanc é incrível. Se você for parar para observar, na perspectiva histórica do que já tivemos no Brasil, conseguiu-se uma verba que é incrível mesmo. Mas é uma verba emergencial, como eles mesmos falam, que não vai mexer na cadeia produtiva de uma forma aguda como precisa na cultura brasileira. Então você vê como andam os grupos de teatro e as companhias de dança e começa a analisar o histórico dessas pessoas – são pessoas totalmente desassistidas, que vivem numa roleta russa de se inscrever em editais. Todo ano você começa a sua carreira do zero, não importa quantos festivais você vá, quantos prêmios você ganhe, quantas plateias você lote... surge um novo edital, você está partindo do zero. Não é levado em consideração a sua carreira, seu tempo de carreira, sua dedicação àquele trabalho. Acho que isso é uma das coisas que provam que não há uma política pública efetiva às artes, porque não se pensa no artista que produz, que está sempre em cena, que tem uma trajetória, que tem uma carreira consolidada. É tudo jogado no mesmo balaio de gato e salve-se quem puder.


E você acha que esse movimento virtual, que muitos artistas estão utilizando para levar arte para dentro das casas durante a pandemia, pode ser uma saída para o futuro do teatro?

Não. Não acho que seria uma saída porque acho que existe mais um fetiche em assistir coisas online do que uma real necessidade. Por exemplo, o meu grupo, o Teatro NU, enche plateias. As pessoas têm interesse em ver nossas peças em cartaz. Mas, virtualmente, quem é que vai estar em casa e lembrar que "ah, vai ter uma peça virtual do Teatro NU, vamos pagar para assistir"? Ninguém vai pagar. As pessoas pagam para ver alguém de renome, alguém que é famoso, alguma coisa diferenciada, que seja mais polêmica. Estou pensando no artista comum, que sou eu, que é o meu grupo e tantos outros que trabalham com teatro. Artistas comuns que fazem teatro, que tem público, mas não são famosos, que não estão em capa de jornal. Essas pessoas vão fazer teatro virtual e ganhar o quê com isso? Vai cobrar quanto no ingresso? Quantas pessoas vão pagar? Eu conheço artistas que estão fazendo live para 30, 40 pessoas. Você acha que dessas 30, 40 quantas pagariam para estar assistindo-os ali? Só estão assistindo porque é de graça, porque ligou e descobriu por acaso. Mas ninguém vai pagar para ver certos artistas brasileiros. Então essa alternativa poderia ser boa se houvesse interesse do público, mas acho que tem essa questão que, para mim, é grave porque a gente não vai conseguir sobreviver fazendo live de teatro. Não vão pagar. É diferente, é outra abordagem.


Os atores Denise Correia e Marcelo Praddo conduziram o 27º Prêmio Braskem | Foto: Carlos Casaes / Bapress

Mesmo presencialmente, vocês notam essa dificuldade do público em pagar pelas peças?

Não. Eu sinceramente acho que o que falta é mais visibilidade para o nosso trabalho. O Teatro NU pode até ter problema de público quando a gente volta com uma peça que está há anos em cartaz, mas a gente sempre volta e tem um público que vai, assiste, paga o ingresso. Agora, as pessoas não sabem. É muito recorrente que amigos meus – pessoas da área da cultura, inclusive – falem "e aí, Gil, o que tem feito?", eu falo "ah, acabei de fazer As Tentações de Padre Cícero" [e respondem] "menino, eu não soube, quando foi essa peça?". As pessoas não sabem que a gente está em cartaz porque nós vivemos numa bolha e isso é muito triste. Se a gente conseguisse meios eficazes para Salvador saber que existia uma peça sobre Padre Cícero acontecendo no teatro, a gente ia ter mais público, estender a temporada por conta da temática. Então acho que o público paga e pode ter interesse, sim, em assistir, mas quando ele sabe que a peça existe.


Então acaba faltando um pouco de divulgação da própria mídia?

Falta divulgação da mídia, falta uma visibilidade para a gente. Está tudo interligado. Acho que tem culpa em todas as instâncias porque, em termos governamentais, o teatro não existe como uma arte que interessa para divulgar. Você vê uma propaganda da Bahia, de Salvador, e é falando de carnaval, camarote, não-sei-o-quê. A gente tem um teatro aqui que é premiadíssimo, que exporta talentos incríveis para o teatro e para o cinema do mundo – temos aí atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos, Laila Garin –, mas a valorização aqui é mínima. Você vai em Buenos Aires, na Avenida Corrientes, tem teatro para tudo quanto é lado e existe uma valorização da cultura teatral na cidade. Isso tem muito a ver com a mentalidade da cidade, é o que você quer para o seu povo. Eu comprei um livro sobre o teatro alemão e o prefácio fala que na Alemanha houve interesse dos governos sucessivos em botar o teatro como uma referência da identidade nacional. Então você vai no país e é impressionante como os teatros estão sempre com programações tão cheias. Há uma verba efetiva e visibilidade. Eu estava em Viena no início do ano e aí você vê, por exemplo, um ônibus passar todo plotado com uma exposição. Aqui você não tem esse espaço, que é caro para a gente acessar. Então é uma questão mesmo de visibilidade. Tenho plena convicção, pela qualidade do teatro de Salvador, de que se o público baiano tivesse acesso ao que é produzido com qualidade aqui na cidade, a gente teria uma plateia muito maior pagando para ver teatro.


Falando sobre a cena local, 58 peças foram avaliadas pela comissão julgadora, mais de 15 foram indicadas este ano e seis peças diferentes levaram estatuetas. Isso mostra a diversidade do teatro baiano? Ou ainda é um pequeno número?

Olha, a produção caiu muito. Teve anos que chegaram a ter 200 espetáculos acontecendo e sendo avaliados pela comissão. Se você for verificar, os editais dos governos Federal, Estadual e Municipal, os financiamentos e as políticas públicas vão de mal a pior. Acabaram com o Ministério da Cultura e a Funarte está completamente sucateada, então o investimento do governo estadual caiu para a área da cultura. Já tivemos, na época do governo Wagner, o dobro ou o triplo do investimento que se tem hoje. Então cortam logo da área da cultura. Você não vê nenhuma política pública que diga assim: "ó, farmácia, estudante vai poder pagar a metade do preço quando for comprar remédio e o problema é de vocês que vão ter que vender pela metade". Ninguém pensa nisso. Agora, existe a lei da meia-entrada, que só quem sofre as consequências é o artista que tem que cobrar metade do valor de seu trabalho e não tem ressarcimento do estado. Tudo cai nas costas da arte. Vai cortar verba, vai fazer contingenciamento, tira da arte. Vai eliminar um ministério, tira o Ministério da Cultura. Há um histórico de opressão em relação ao fazer teatral no Brasil e isso é uma coisa que, pela perspectiva que a gente vê na atual política brasileira, vai demorar décadas para conseguir recuperar alguma coisa de dignidade real para as artes no Brasil.


Sobre essa questão da meia-entrada, você acredita que não há benefício algum para os artistas? Nem mesmo ajuda a trazer mais pessoas ao teatro?

Eu acho que a meia-entrada é válida. Hoje tem uma limitação, em que você só pode vender 40% da casa de meia-entrada. Foi uma lei para proteger um pouco mais o artista porque, muitas vezes, acontecia de você fazer um espetáculo e 80% ser de meia-entrada. E como não tem ressarcimento nenhum, não tem como a gente sustentar um espetáculo. Já aconteceu de grandes bandas e músicos deixarem de vir para Salvador porque fizeram uma pesquisa em que 80% dos ingressos eram meias e não tinham como bancar a turnê. Então com essa lei teve uma melhora. A minha conversa aqui não é em relação aos estudantes ou à lei da meia-entrada – acho isso maravilhoso. Minha conversa aqui é que os governos abandonam a gente ao deus dará. As pessoas acham que artista vive de vento, de luz, de qualquer coisa, então você pode atrasar repasses, pode não ter financiamento, pode não ter recurso, pode cortar a verba, pode acabar com ministério, pode fazer tudo porque o artista "se vira".


O Prêmio Braskem existe há 27 anos. O que você diria que aprendeu sobre o teatro baiano nesse tempo? Algo que você só pôde notar através desse prêmio.

Eu acho que é louvável que o prêmio tenha essa duração e que se mantenha sem perspectiva de acabar. O teatro é o defunto mais saudável que existe porque estão sempre matando o teatro. Quando surgiu o cinema, o teatro ia acabar. Quando surgiu a televisão, o teatro ia acabar. Toda hora o teatro ia acabar, mas o teatro está sempre aí, firme e forte. Acho que o teatro baiano também tem isso. A gente passa por altos e baixos, mas nós temos muitos criadores, grandes atrizes, atores e diretores, temos uma criação incrível na cidade. O que acontece: atualmente, se eu quiser voltar com uma peça minha, na cara e na coragem, eu saio com prejuízo, por mais que eu consiga lotar o teatro, porque tem que pagar técnico de som, técnico de luz, pauta de teatro, transporte de cenário, montagem do cenário. É uma grana tão grande para colocar um espetáculo em cartaz, tão dificultoso. O gasto não compensa, por mais que você lote uma plateia num teatro médio de 150, 200 lugares. Na Europa é incrível como o teatro funciona, mas existe uma coisa que poderia ser repensada: o ingresso médio de uma peça lá é 40, 50 euros. Isso é um absurdo porque é um teatro que tem um grande financiamento do Estado, na maioria das vezes – por mais que exista uma divisória em que o Estado banca x% da companhia e o resto eles tem que ter de receita, é uma coisa muito doida. Mas, aqui, a gente nem isso tem. A gente cobra baratinho, a média de ingressos é R$ 40, R$ 20 a meia. E o que eu mais vejo em Salvador é gente que acha caro ir ao teatro, mas que você encontra em qualquer mesinha de plástico com a portinha aberta com seis, sete cervejas embaixo. Duas cervejas são o preço que ele pagaria num ingresso para ir ao teatro. Quando as pessoas dizem que ir ao teatro é caro, é questão de prioridade, porque não temos essa cultura, não temos o teatro como uma identidade do nosso povo porque não há interesse para tal.

Mesmo com todas essas problemáticas, você vê o futuro do teatro com bons olhos?

O teatro baiano nunca vai sucumbir. Jamais. Porque tem gente de gerações anteriores a minha que continuam indo. Minha geração também é forte, novas gerações estão chegando aí. A edição do Braskem deste ano, por exemplo, foi, em sua maioria, composta por gente da minha geração ou de gerações mais novas. E eu sou professor da Escola de Teatro [da Ufba] e vejo, por ano, pessoas entrarem naquela escola para fazer mestrado, doutorado. Então, não só a Escola de Teatro oferece ao mercado pessoas capacitadas anualmente, como também oferece pesquisadores, professores, pensadores de teatro. A gente ainda tem uma pós-graduação de excelência aqui na cidade, que é super bem vista fora daqui. Nosso futuro vai ser sempre muito bom porque o teatro está sempre se renovando. Anualmente chegam novos talentos entrando e saindo da Escola de Teatro, fazendo cursos, estreando peças e projetos. Então a gente sobrevive a isso tudo. Agora, não custava ter um pouquinho mais de atenção. Não é porque somos highlander [Guerreiro Imortal] que a gente merece sofrer tanto. Porque parece que, por a gente ser highlander, eles ficam o tempo todo tentando cortar nossa cabeça só para ver se é verdade mesmo.