• Eduardo Pepe

Novos tempos, novos formatos

A 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo adota formato online e possibilita acesso para cinéfilos de todo o Brasil até 4 de novembro


Documentário chinês Coronation, do diretor Ai Weiwei, é um dos títulos exibidos pela Mostra | Foto: Divulgação


A área cultural foi uma das mais afetadas pela pandemia. Foi o primeiro setor a parar e será o último a voltar plenamente, já que a comercialização da arte pressupõe aglomeração. Ainda assim, o mercado vem tentando se virar como pode para não paralisar totalmente. Os cantores acharam as lives nas redes sociais e foram a sensação no início da quarentena, já o teatro e o cinema correm para se adaptar ao modelo virtual. Os festivais, que trazem boa parte das maiores novidades do audiovisual autoral, estão, cada um a sua forma, buscando uma solução.


O Festival de Gramado funcionou em parceria com o Canal Brasil, com os filmes sendo exibidos pelo canal e os debates e as entrevistas sobre os lançamento sendo feitos nas redes sociais. Já a Mostra de São Paulo, que começou no último dia 22 e vai até 4 de novembro, encontrou um formato híbrido: a programação principal exibida nos cinemas Drive-In da capital paulista e a maior parte da programação disponível online através de aluguel. Para conter vazamentos afinal, a mostra conta com vários filmes inéditos foi criada uma plataforma exclusiva do festival: a Mostra Play. O Cine Belas Artes, tradicional cinema paulista, também aderiu sua plataforma digital para parte da programação, com o Belas Artes À La Carte.


O formato, entretanto, afastou alguns filmes aguardados da seleção, como a maioria dos filmes americanos cotados ao Oscar. Nomadland, One Night in Miami, The Father e Ammonite são apenas alguns exemplos. Isso ocorre porque, apesar da criação de uma plataforma exclusiva, as distribuidoras grandes temem um possível vazamento, o que seria fatal para a distribuição comercial de qualquer filme de grande porte. Entretanto, esse empecilho não diminuiu a qualidade ou a quantidade das produções, que somam 198 filmes oriundos de mais de 70 países.


A forma de participar é simples: basta cadastrar um e-mail no site da Mostra Play ou no Belas Arte À La Carte, escolher o título a próprio gosto e realizar o aluguel (R$ 6,00) com um rápido cadastro de cartão. Após o pagamento, o filme fica disponível para ser visto por 72 horas. Ao dar o primeiro play, o comprador tem um dia para terminar de ver a produção.


Dentre as centenas de opções oferecidas pela Mostra, alguns filmes já estão esgotados, como o documentário chinês Coronation, do diretor Ai Weiwei. O longa foi gravado durante a pandemia e examina o controle político do governo chinês do primeiro ao último dia do lockdown na cidade de Wuhan. Estão esgotados, também, o mexicano Nova Ordem, de Michel Franco que foi escolhido como filme de abertura do festival , e o brasileiro Casa de Antiguidades, de João Paulo Miranda Maria cotadíssimo para representar o Brasil no Oscar 2021 depois de ter passado por festivais de prestígio, como Cannes, Toronto e San Sebastián. Os dois trouxeram tanto elogios quanto certa controvérsia. Mas, além desses, a programação tem muita coisa que vale dar uma conferida.


Os melhores que vi até o momento


Dos 15 filmes que já pude assistir ao longo da Mostra, a produção brasileira tem me impressionado mais. Curral, do pernambucano Marcelo Brennand, traz Thomas Aquino (o “Pacote" de Bacurau) como um assistente de um candidato a vereador de uma cidadezinha do interior. O longa mistura comédia, drama e suspense para fazer um retrato brilhante do sistema político brasileiro, olhando o macro a partir do micro. Já Valentina, do mineiro Cássio Pereira dos Santos, bota a existência e a resistência trans em debate ao colocar a adolescente Thiessa Woinbackk como a nova moradora de uma pequena cidade, onde tem que se refazer no ensino médio de um colégio diferente. Ainda vale destacar O Livro dos Prazeres, de Marcela Lordy, que adapta o livro Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector.


Curral, do pernambucano Marcelo Brennand, mistura comédia, drama e suspense para retratar a política brasileira | Foto: Daniela Nader / Divulgação

Entre os estrangeiros, o destaque vai para Shirley. O drama independente norte-americano coloca a ótima Elisabeth Moss (das séries Mad Men e The Handmale's Tale) como a escritora Shirley Jackson em um retrato ácido, fora do convencional e diferente das cinebiografias mais brandas. Não conhecia nada da obra da autora e saí, no mínimo, curioso para conhecer. Outro título interessante é Sem Ressentimentos, passado na Alemanha. O longa segue um jovem filho de iranianos que se apaixona por um homem que fugiu do Irã e vive no país em um abrigo, tentando regular sua situação como imigrante. Apesar da trama pesada, o diretor Faraz Shariat conduz esse filme semi-biográfico com ternura e o trio central de atores esbanja química, carisma e naturalidade.


Ainda não vi, mas tenho interesse


Ficção


Há muita coisa interessante que eu ainda não pude conferir, como Não há Mal Algum, do iraniano Mohammad Rasoulof. Vencedor do Festival de Berlim, o longa conta quatro histórias em paralelo que estão relacionadas à pena de morte e questiona até que ponto a liberdade individual pode ser expressa sob um regime autoritário e desigual como o do Irã. Por causa do filme, o diretor está cumprindo pena de um ano de prisão. A acusação? Fazer propaganda “contra o sistema”. Outro exemplo é o sueco Suor, do diretor Magnus von Horn, que tem selo do Festival de Cannes 2020 e vem com um retrato ácido dos digital influencers no acompanhamento do dia a dia de uma influencer de vida fitness.


Vindo do Lesoto, na África, o diretor Lemohang Jeremiah Mosese traz o aclamado Isso Não é um Enterro, É Uma Ressurreição, que, para alguns críticos, é o melhor filme da Mostra. O longa gira em torno de uma viúva aguardando o retorno do filho, que trabalha nas minas da África do Sul. Quando recebe a notícia de sua morte, a mãe organiza tudo que tem para dar fim a própria vida. Seus planos mudam quando descobre que as autoridades pretendem inundar toda a região para construir uma barragem. Ela, então, decide viver para lutar por sua terra. Josep, do ilustrador francês Aurel, é o destaque entre as animações e fala sobre os espanhóis que fugiram da ditadura de Franco, rumo à França, durante a Segunda Guerra Mundial.


Outros filmes interessantes: o japonês Mães de Verdade, de Naomi Kawase; o iraniano Pari, de Siamak Etemadi; o português Mosquito, de João Nuno Pinto; o sueco Minha Irmã, de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond; e o checo O Charlatão, de Agnieszka Holland.


Documentário


Notturno, do italiano Gianfranco Rosi, saiu elogiadíssimo do último Festival de Veneza e é o maior destaque entre os documentários da Mostra. O filme apresenta o cotidiano dos habitantes por trás de guerras civis, ditaduras e invasões. O campo de batalha não aparece diretamente: ouvimos sobre ele pelos bastidores, através de mães de soldados, crianças feridas e profissionais de saúde. O longa tem chances de aparecer no Oscar, seja como Melhor Filme Internacional ou como Melhor Documentário. Outro bastante elogiado é Welcome to Chechnya, do norte-americano David France. O documentário retrata o trabalho de um grupo clandestino de ativistas que enfrentam diversos riscos para resgatar vítimas LGBT+ da perseguição das autoridades chechenas.


Para os fãs de Marina Abramovich, De Volta Para Casa - Marina Abramovich e Seus Filhos, de Boris Miljkovic, acompanha a artista se preparando para a exposição The Cleaner, que fez uma retrospectiva de sua carreira e passou por diversos países. O destino final é a cidade natal de Marina, Belgrado, na Sérvia um lugar que ela não visitava há 40 anos. Também tem documentários sobre o diretor Stanley Kubrick (Kubrick por Kubrick, de Gregory Monro), sobre o documentarista Silvio Tendler (Nas Assas da Panam, do próprio Silvio Tendler) e sobre o polêmico George Soros (Soros, de Jesse Dylan). Esse último acompanha o bilionário em viagens pelo mundo, aborda como ele lida com críticas de esquerda e de direita e conta um pouco de sua história, como a experiência de sobreviver ao Holocausto e de sua luta pelos direitos civis para minorias.


Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2020

Toda programação e informações sobre a Mostra pode ser adquirida no site: 44.mostra.org/

Plataforma para aluguel dos filmes: mostraplay.mostra.org/

*Por Eduardo Pepe, jornalista, crítico costumas, apaixonado por cinema, música e arte em geral