• João Victor Grecco

O capítulo sombrio das bienais do livro

Em São Paulo, queda de público. No Rio de Janeiro, censura. Na Bahia, apenas memórias


Além da venda de livros, as bienais fomentam debates, promovem atrações culturais e incentivam a leitura | Foto: Freddie Marriage / Unsplash

Dilma Rousseff era presidenta do Brasil, ACM Neto tinha acabado de assumir a prefeitura de Salvador e o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro ainda estava vivo quando a Bienal do Livro se “despediu” da Bahia em 2013. Coincidentemente, é justamente neste ano que o evento bate recorde de público ao atrair 175 mil pessoas.


Etimologicamente, a palavra bienal é originária do latim biennalis e está relacionada à periodicidade bianual, ou seja, diz respeito aos eventos sociais ou artísticos que acontecem a cada dois anos. Portanto, talvez nem seja mais possível considerar que existe, de fato, uma Bienal do Livro na Bahia. Mas o que essa perda representa para a cultura do Estado?


Para começar, é preciso entender que essas bienais não são simples feiras literárias com fins midiáticos e mercadológicos, por mais que certas pessoas pensem dessa forma. Afinal, além de proporcionar entretenimento, esses eventos fomentam debates, promovem atrações culturais, incentivam a leitura e são importantes para a construção de conhecimentos e o desenvolvimento social.


Quem teve o prazer de participar da 11ª edição da Bienal do Livro da Bahia, em 2013, provavelmente nem desconfiava que um evento tão rico estava com os dias contados. Foram 10 dias, 385 expositores, cirandas de livro para as crianças, praça de cordel e vários nomes conhecidos no meio literário, como Fabrício Carpinejar, Antônio Torres, Thalita Rebouças e João Ubaldo Ribeiro.


Quando o antigo Centro de Convenções da Bahia foi interditado pela Secretaria Municipal de Urbanismo, em 2015, algumas pessoas começaram se perguntar aonde seria a Bienal daquele ano. Consequentemente, esse triste capítulo ainda sem página para acabar é sempre associado à interdição e ao desabamento deste prédio que era mais do que um espaço de eventos, fazia parte da história de Salvador.


Apesar da Bahia ter ficado impossibilitada de sediar uma bienal por “falta de uma locação adequada”, os leitores baianos não foram completamente desconectados deste evento. Afinal, em maior ou menor grau, informações e comentários sobre as Bienais do Livro de São Paulo e do Rio de Janeiro costumam circular por todo o Brasil.


A Bienal do Livro de São Paulo, por exemplo, já está acostumada a reunir centenas de milhares de leitores. Na capital paulista, a bienal acontece desde 1970 e já chegou a receber 750 mil visitantes em uma única edição. Nos últimos anos, o número de visitas está caindo, mas o evento continua sendo grandioso. Em 2018, foram 313 autores (22 internacionais) e 1.800 horas de programação em um espaço de 75.000 metros quadrados.


HQ Vingadores, A Cruzada das Crianças | Foto: Marvel

Nem mesmo a grandiosidade do evento sediado em São Paulo chamou tanta atenção dos brasileiros quanto a polêmica da 19ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em setembro de 2019. Por determinação do prefeito Marcelo Crivella, fiscais da Secretaria Municipal de Ordem Pública foram até ao evento no Riocentro para recolher livros com temática gay. A justiça vetou a censura de Crivella e todos os exemplares da graphic novel que causou a polêmica (Vingadores, A Cruzada das Crianças) foram vendidos rapidamente.


Essa tentativa de censura, baseada em preceitos homofóbicos, repercutiu vertiginosamente e muitas personalidades se manifestaram repudiando a atitude de Crivella. Inclusive, como forma de protesto, o youtuber Felipe Neto comprou 10.000 livros com temática LGBTQIA+ e distribuiu gratuitamente no evento. A repercussão foi tão grande que o próprio prefeito de Salvador, ACM Neto, aproveitou o burburinho para anunciar que, em 2020, a Bienal do Livro da Bahia voltaria a acontecer na capital baiana.


Não é possível afirmar se o pronunciamento do prefeito foi pautado por uma preocupação estritamente midiática ou cultural. Porém, independentemente de qual foi a sua intenção, em oitos anos de mandato, ACM Neto só acompanhou a promoção da Bienal do Livro da Bahia uma única vez. Afinal, no dia 2 de novembro deste ano, anuncia-se oficialmente o cancelamento da edição que aconteceria em setembro.


Em 2019, de acordo com o ACM Neto, na Bienal da Bahia não há censura. Por outro lado, pelo visto, há uma maldição. Após sete longos anos de espera, os leitores baianos que estavam prestes a aproveitar este tradicional evento literário novamente se deram conta de que estão longe de virar a página deste capítulo sombrio. Porém, como a literatura tende a resistir, a 26ª edição da Bienal de São Paulo foi adaptada para o contexto atual e vai acontecer virtualmente entre os dias 7 e 13 de dezembro.