• Victor Melo

O direito do poliamor

Não assegurados pela lei, os praticantes de poliamor apostam no amor para vencer o preconceito


Igor, Íris e Isane acreditam que o Brasil ainda precisa avançar nas leis para assegurar direitos aos trisais | Foto: Acervo Pessoal

Após se relacionar monogamicamente com outras pessoas, a fotógrafa Lua Novaes percebeu que não se encaixava naquele tipo de relacionamento. Até quando ela seguia todas as "regras" impostas pela monogamia, a outra pessoa envolvida acabava traindo-a e rompendo o "contrato" monogâmico. Mas esse não era o único problema, pois Lua também percebeu que se apaixonava por mais de uma pessoa por vez, o que só provava que aquele modelo não era ideal para ela.


Assim como Lua, muitas pessoas também não se sentem contempladas pelo modelo de relacionamento mais tradicional da sociedade, a monogamia. Alguns optam por relacionamentos abertos, outros por relações poliamorosas ou até mesmo pelos dois formatos ao mesmo tempo.


Lua Novaes | Foto: Acervo Pessoal

“A monogamia cerceia uma liberdade de espontaneidade, de quem eu sou e de quem as pessoas são de uma maneira geral. A gente passa a se dividir em ‘eu sou assim quando estou solteiro e assim quando estou namorando’, e isso não existe. Seguimos sendo a mesma pessoa, mas que boicota e cerceia nossos desejos em prol de uma relação”, aponta a fotógrafa, que já viveu relacionamentos abertos e poliamorosos.

Formar um trisal ou embarcar em um relacionamento amoroso com mais de uma pessoa nem sempre – ouso dizer que na maioria dos casos – é algo pensado. Isane e Igor já mantinham um relacionamento aberto quando conheceram Íris, que naquele momento também estava em uma relação aberta. Apesar de já se envolverem quando existiam os dois casais, o trisal só começou a se configurar de fato quando Íris e seu antigo namorado resolveram acabar a relação.


O convívio dos três, então, ficou cada vez mais intenso. “Quando a gente viu, a gente já vivia um relacionamento. Então a gente ficava sempre questionando ‘e aí, a gente vai oficializar?’ e resolvemos oficializar”, conta Isane. Foi a partir da oficialização da união que os três passaram a se apresentar para a sociedade como um trisal – e o que antes só era de conhecimento dos amigos, passou a ser exposto para todos.


A história de Itainã, Júnior e Luís é parecida com a de Isane, Íris e Igor. Após alguns anos de relacionamento, Itainã e Júnior decidiram abdicar da monogamia e partir para um relacionamento aberto. Depois de saírem e se envolverem com outros homens, mas sem pretensão de constituir uma relação, eles conheceram Luís. “Com ele, fluiu de uma forma diferente, e acabou que a gente começou a namorar sem nem perceber”, conta Júnior.


Como tudo aquilo que foge ao padrão imposto pela sociedade, esses relacionamentos enfrentam muita resistência e preconceito. “Muitas pessoas não acreditam no poliamor, não acreditam em um relacionamento não monogâmico. Mas, para quem acha que não passa de um encontro casual, acabamos sendo uma prova viva que não é exatamente assim”, explica Júnior, que já vive uma relação poliamorosa há quase três anos.


Além da descrença, algumas pessoas chegam a insultar quem não pratica a monogamia – como aconteceu com Lua. A fotógrafa foi acusada destruir o próprio casamento quando passou de um relacionamento monogâmico para um trisal. “Eu ouvia que coloquei uma mulher na minha relação para destruir a relação, que ela iria destruir a minha vida, que eu tinha um casamento, um filho, e que aquilo me destruiria”, relata.


Igor, por estar se relacionando com duas mulheres, acaba recebendo um feedback diferente: muitas pessoas o colocam na posição de alguém que está realizando um fetiche. “Já aconteceu momentos de estarmos em festas e um cara chegar para mim e falar ‘você é o cara’. É o tipo de coisa que eu recebo sem graça, não é o tipo de comentário que eu gosto de ouvir. Nossa relação não se resume a esse sentido”, conta o eletrotécnico.


Íris e Isane, por outro lado, acabam sendo colocadas em outra posição. “Nós, as meninas, acabamos sendo xingadas pelos piores nomes. Dizem que não sabemos segurar homem etc. Mas nunca é diretamente; a gente percebeu isso a partir de uma entrevista que demos a um portal e muitos comentários eram desse tipo”, conta Íris. “Geralmente esses comentários não chegam em Igor. Para essas pessoas, ele é o garanhão e nós somos as vagabundas”, completa Isane.


Como a Lei se posiciona


Além do preconceito social, esse tipo de relação também não é aceita pela lei brasileira. Em 2018, o Conselho Nacional de Justiça determinou que nenhum cartório do Brasil registrasse união estável para relacionamentos poliafetivos, invalidando até as uniões registradas antes da decisão.


A advogada Bruna Alves explica que as decisões judiciais que envolvem relações poliamorosas estão sendo julgadas como concubinato, o que não permite direito aos parceiros. “O poliamor é uma coisa que existe e, assim como a união estável é uma coisa regulamentada, também precisa ser regulamentado. Hoje em dia, em caso de morte ou separação, essas pessoas ficam à mercê”, reflete a advogada.


Mesmo sem planos para oficializar a união ou lidar com burocracias de um casamento tradicional, Igor, Isane e Íris pensam que é preciso avançarmos nessas questões. “De fato, é preciso falar disso e ter pessoas do Direito que lutem por essa causa. Parecem coisas pequenas, mas que fazem muita diferença na vida de quem vive essa realidade, como a questão de filho, plano de saúde, acompanhante em caso de doença...”, comenta Íris.


Itainã, Luís e Júnior já estão juntos há quase três anos, contrariando quem não acredita no modelo de relacionamento | Foto: Acervo Pessoal

Júnior também acredita que todas pessoas precisam ter os seus direitos garantidos, independente da forma com que se relacionam com outras pessoas, mas entende que isso não chega a ser um empecilho. “Não necessariamente a gente precisa de afirmação ou permissão de lei alguma para viver nossa vida”, diz o cirurgião dentista.


Para os trisais e para os casais poliamorosos que pensam em assegurar os seus parceiros caso alguma das partes venha a óbito, a advogada tem um conselho. "Já que a lei não está protegendo esses casais, a orientação jurídica que eu deixo é o testamento assegurando as outras partes. É um documento onde a vontade da pessoa prevalece", diz Bruna.


Um movimento que está ajudando as pessoas a se acostumarem com essas relações e que podem gerar frutos futuramente é a criação de perfis em redes sociais, onde as pessoas mostram e dividem um pouco da rotina de um relacionamento poliamoroso. O @nossatriiiade é o perfil do Instagram em que Isane, Igor e Íris compartilham um pouco do que vivem, e os feedbacks por lá costumam ser bons.


"Com poucos seguidores, a gente já tinha pessoas que interagiam com a gente, até mesmo para pedir conselho. Apareceu muita gente que queria viver um trisal, gente que queria aprender a controlar o ciúmes e outras pessoas que já viviam e queriam compartilhar as experiências", conta Íris, que por ser psicóloga acaba recebendo muitas dúvidas dos seguidores.


Luís, Itainã e Júnior também compartilham suas vivências no Instagram, pelo perfil @simsomos3. Lá, se encontram fotos do trisal em casa, em festas e com as mães, que respeitam e apoiam a união. Nas ruas de Salvador as reações são distintas, mas a maioria das pessoas mostra apoio, assim como a família. "Tem muita gente que gosta, que acha legal, que se inspira e que nos apoia. Por mais que existam pessoas que vão torcer a boca, nós temos uma rede de amor e de afeto próxima da gente que é muito grande", explica Junior.


Além do apoio dos amigos, Lua conta com um apoio que, para ela, é o mais importante: o do filho de nove anos. Ela nunca escondeu dele os seus relacionamentos e acredita que essa transparência na relação também vai fazer muito bem para ele. "No futuro, ele pode ser um menino super monogâmico e eu não vou achar ruim, mas ele vai respeitar a não monogamia porque ele sabe que isso existe. Ele vai ter um olhar diferente que vai levar ao respeito", conta a fotógrafa.


Enquanto as leis ainda não os asseguram, os trisais apostam em compartilhar o amor para minimizar o preconceito, mostram que amam como qualquer outra pessoa e que isso não os faz melhores ou piores que ninguém.