• João Victor Grecco

O espaço das redes sociais no processo de desliteraturização da sociedade

Da popularização dos leitores digitais ao desenvolvimento de narrativas autobiográficas, como a tecnologia está mudando os hábitos de consumo e produção literária no Brasil?


Novos formatos têm conquistado cada vez mais público e modificado hábitos de leitura pelo país | Foto: Freestocks / Unsplash


Quando a Livraria Saraiva anunciou o fechamento de todas as suas quatro Mega Stores de Salvador, uma legião de leitores soteropolitanos lamentou a notícia. Muitos deles utilizaram as redes sociais para contar memoráveis experiências que viveram nessas finadas livrarias. E apesar de alguns intelectuais considerarem que a internet é a principal vilã dos bons hábitos de leitura, ainda há controvérsias a respeito do papel da tecnologia no processo de desliteraturização da sociedade.


Uns dos marcos da desliteraturização brasileira são encontrados justamente em transformações jornalísticas. Essas mudanças se iniciaram, ainda na década de 1950, quando o espaço da literatura foi restringido aos suplementos literários. Mas é durante a transição do século XX para o XXI que o interesse pela leitura diminui ainda mais e a literariedade deixa de ser um marco do jornalismo no país.


O percentual de pessoas que acessam a internet aumenta cada vez mais no Brasil. Inclusive, a App Annie constatou que os brasileiros ocupam a terceira posição no ranking de pessoas que mais utilizaram apps em 2019. Em contrapartida, de acordo com a pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural, o Brasil perdeu 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019. Os resultados apontam que apenas 52% dos brasileiros mantêm hábitos de leitura e que as classes A e B são maioria nesse inexpressivo percentual de leitores.


Coincidentemente, nesse mesmo período, o boom dos booktubers fez surgir questionamentos a respeito da essência dessa atividade. Estariam os booktubers atuando como críticos literários ou apenas em busca de “jabá”? A verdade é que não há como afirmar qual a intensão desses profissionais ou avaliar a qualidade desses conteúdos de forma genérica. Por outro lado, os canais que mais se destacam nesse segmento são comandados por bacharéis e licenciados em letras ou jornalismo que, indiscutivelmente, ajudam a fortalecer a comunidade literária e construir novos leitores.


Apesar de ser difícil mensurar esses dados quantitativamente, há alguns anos, já se difunde que o booktube é uma excelente vitrine que chega a vender mais do que livrarias físicas pequenas. Então, ao contrário do que muitos imaginam, felizmente, esses produtores de conteúdo têm disseminado cultura e informações do universo literário para a geração digital.


Outro impacto da tecnologia no consumo de literatura pode estar “ameaçando” o legado dos livros físicos. Os novos formatos têm conquistado cada vez mais público e modificado hábitos de leitura pelo país. Quando os livros digitais começaram a se popularizar, por exemplo, muitos leitores não simpatizaram com a novidade. Atualmente, as pessoas já entendem que leitores digitais representam apenas uma alternativa tecnológica que complementa uma rotina literária tradicional. Mas eles estão longe de substituir o papel. Ainda há os audiolivros, uma novidade tecnológica inclusiva que se apresenta como uma tendência do mercado editorial.


Apesar do processo de desliteraturização ter se intensificado na virada do século, o desinteresse pela literatura não deve ser encarado simplesmente como responsabilidade da ampliação do acesso à internet. Muito pelo contrário, já que os recursos tecnológicos podem viabilizar o acesso à literatura. Inclusive, as redes sociais, assim como a televisão, são apenas mais uma forma de distração dentre tanto outros motivos que levam as pessoas a não manterem uma rotina de leitura.


Mas, tendo em mente que a desliteraturização é um fato, quais são os entraves para o desenvolvimento de hábitos literários entre os brasileiros? Para tentar responder essa pergunta não há como escapar de temas como política e educação. O incentivo à leitura é ineficaz, o analfabetismo funcional é alto e as propostas para taxar livros e censurar bienais só demonstram como os retrocessos atingem diretamente o presente e o futuro da literatura no Brasil.


Livros digitais representam uma alternativa tecnológica, mas estão longe de substituir o papel | Foto: Susan Yin / Unsplash

Redes socioliterárias


Além de modificar a forma como a literatura é consumida, a tecnologia transformou a rotina de muitos escritores e ajudou a revelar o talento de tantos outros. Inicialmente, os blogs funcionaram com uma espécie de diário em que escritores e blogueiros compartilhavam textos, fotos e vídeos de termas variados. Era comum encontrar blogs sobre cinema, literatura, moda, gastronomia e diversas outras temáticas.


Pouco tempo depois, as redes sociais passaram a funcionar como uma espécie de diário que incentiva as pessoas a narrarem, constantemente, experiências de vida. Por mais que a poética e a literariedade não se faça presente em boa parte dos perfis dedicados a compartilhar acontecimentos do dia a dia, não é difícil encontrar pessoas se revelaram ótimas escritoras após o estímulo das novas tecnologias. Mas o gênero literário que costuma se destacar nesse universo é a “escrita de si”.


Escrever sobre si é uma alternativa utilizada pelo cidadão moderno para se reafirmar enquanto um sujeito individualizado e expor as suas subjetividades. Nesse processo, em alguns momentos, as dicotomias público-privado e ficção-realidade se tornam cada vez mais tênues e as redes sociais se fortalecem como espaços de autoafirmação, autobiografia e autoficção. É justamente com essa autoficção que o leitor se depara no livro “O pai da menina morta” do editor Tiago Ferro.


Após perder a filha para uma gripe, em 2016, Tiago Ferro fez da escrita parte do seu processo de luto. Ele passou a compartilhar recordações emocionadas em seu perfil no Facebook e acabou publicando um livro em 2018. Essa é uma história que começou a ser contada através das redes sociais e rendeu o Prêmio Jabuti, na categoria romance, em 2019. Assim como Ferro, diversos outros escritores (e leitores) estão surgindo através da internet para reforçar a ideia de que a desliteraturização é uma realidade, mas a tecnologia não parece ser o centro do problema.