• Catharina Dourado

O mistério não era essencial, essencial era Clarice

A escritora completaria 100 anos de vida neste 10 de dezembro de 2020 e continua sendo lida, estudada e celebrada – como deveria


Em 56 anos de vida, Clarice Lispector publicou obras que transmitem sensações além dos simples fatos | Foto: Divulgação

Foi em 1922 que Clarice Lispector, ainda sob o nome de batismo, Chaya Pinkhasovna Lispector, e com apenas dois anos de idade, chegou ao Brasil. Naquele mesmo ano, o país viveu a Semana de Arte Moderna e passou a assumir novos rumos artísticos, sem imaginar que ganhava uma figura que se consolidaria na literatura brasileira durante a terceira geração modernista e se tornaria uma das principais escritoras do século XX.


De origem judaica russa, a família Lispector fugiu da perseguição antissemita, que resultou em muitos extermínios em massa à época, e encontrou refúgio em Maceió, Alagoas. Uma vez no Brasil, Chaya, seus pais e suas duas irmãs adotaram nomes brasileiros, passaram alguns anos na capital alagoana, mudaram-se para Recife e, depois, se estabeleceram no Rio de Janeiro.


Enquanto crescia, Clarice sempre demonstrou interesse – e talento – pela escrita. Apesar de ter estudado Direito, atuou de fato como escritora e jornalista, caminhando entre prosa, poesia e artigos de opinião. “Escrevo simplesmente. Como quem vive. Por isso todas as vezes que fui tentada a deixar de escrever, não consegui. Não tenho vocação para o suicídio”, disse, certa vez, em depoimento para a amiga Olga Borelli.


Seu primeiro conto conhecido, Triunfo, foi publicado em maio de 1940, quando tinha apenas 19 anos. Seu último romance, A Hora da Estrela, foi lançado no ano de sua morte. Clarice faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, na véspera de completar 57 anos, vítima de câncer de ovário. Em 2020, a escritora completaria 100 anos de vida neste 10 de dezembro e continua sendo lida, discutida, estudada e celebrada – como deveria.


“Clarice Lispector é um ícone por sua literatura, por ser uma literatura de autoria feminina, por ter como cerne de sua obra a condição humana, em situações cotidianas, por suas personagens estarem sempre diante da exclusão e pertencimento”, avalia Mônica Lopes, especialista em Literatura Brasileira e autora da dissertação de mestrado As pessoas de Clarice: Vidas que se encenam.


Clarice publicou mais de vinte obras, aventurando-se por romances, novelas, contos, crônicas e outros gêneros literários. Suas narrativas transmitem sensações além dos simples fatos, traduzem pormenores cotidianos e mundanos em espiritualidade, fogem da compreensão instantânea e apresentam uma visão singular, clariceana da existência. “O que Clarice diz é o indizível”, diz Mônica.


Há um lado espectral enigmático da escritora, que virou poesia de Carlos Drummond de Andrade. “Ficamos sem saber a essência do mistério / Ou o mistério não era essencial / Essencial era Clarice viajando nele”, escreveu o poeta em Visão de Clarice. Desde os monossílabos respondidos à imprensa em entrevistas até a forma de escrever, a autora era – e ainda é – vista como um mistério, uma lenda, quase um mito.


“A escritora tece e busca a própria existência no mundo, envolvendo-se em uma ‘capa de encobrimento’ que, ao mesmo tempo em que a resguarda do desnudamento, a dispõe em evidência pela faceta instigante do mistério”, reflete Mônica. “Por outro lado, parecia brincar com tudo isso. Ora confirmava a própria obscuridade: ‘sou tão misteriosa que não me entendo’; ora se contrapunha: ‘meu mistério é não ter mistério’”, complementa.


Homenagens à centenária


Seja pela aura de mistério ou pelas obras em si, Clarice Lispector conquistou a literatura brasileira e o mundo inteiro. Seus livros não só são lidos, mas também estudados – existem inúmeros estudos clariceanos, com verdadeiras correntes teóricas vinculadas à autora. Outra prova da magnitude de Clarice é a quantidade de homenagens ao seu centenário.


O marco já está sendo celebrado no Brasil e no exterior, dentro e fora das fronteiras da literatura. Desde outubro, o Instituto Estação das Letras está promovendo uma leitura comentada do romance A Paixão Segundo GH; em novembro, Clarice recebeu o título honorífico de cidadã pernambucana e um concerto virtual promovido pela Universidade de Princeton (EUA), com os brasileiros Beatriz Azevedo, Moreno Veloso e Maria Bethânia.



Este mês, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) está apresentando a peça literária Na Sala com Clarice por meio de uma transmissão ao vivo na plataforma Zoom, além de palestras e bate-papos; e no último Clube de Leitura do Sesc do ano, que acontecerá no dia 19 de dezembro, haverá um bate-papo sobre Laço de Família. Há ainda a exposição Clarices, que está em cartaz desde outubro em Salvador.


Assinado pelo ME Ateliê da Fotografia, localizado no Santo Antônio Além do Carmo, o projeto reúne mais de 50 artistas plásticos, fotógrafos, ceramistas, desenhistas e escultores de diversos lugares do mundo – da Bahia ao exterior. Há também atores, que exploram a riqueza oral existente na obra de Lispector a partir de uma leitura de textos, para completar o corpo artístico da mostra.


"A criatividade ficou a critério de cada um e cada um pôde escolher uma obra, uma citação ou o universo dela. Alguns optaram pelas citações, que foi o que me deu mais trabalho porque tem muita coisa na internet que não procede. Então, além de pesquisar sobre a vida dela toda, ainda tive que fazer essa conferência das citações", conta Mario Edson, fotógrafo e idealizador de Clarices.


Em cartaz no ME Ateliê da Fotografia, a exposição reúne obras de mais de 50 artistas para homenagear Clarice | Foto: Divulgação

No dia em que se completa o centenário propriamente dito, 10 de dezembro, Raphael Ribeiro e Oliver Dórea vão construir um mural grafitado no Santo Antônio Além do Carmo, como mais uma atividade da exposição. "Algumas pessoas têm uma visão muito negativa do grafite, pois confundem grafite com pichação. Então eu acho que é uma obrigação do ateliê gerar essa ação para que esses artistas, que têm um trabalho tão bacana, tenham visibilidade", explica Mario.


Essa não é a primeira vez que o ateliê presta uma homenagem póstuma. Anualmente uma figura da área sócio-cultural recebe uma reverência em formato de arte – ano passado foi Frida Kahlo – e Clarice já estava na mente de Mario, antes mesmo de se dar conta de que a escritora completaria 100 anos em 2020. O aniversário veio a calhar, mas a admiração já existia há muito tempo.


"Tem obras dela que são complicadas, que dão um nó na cabeça, mas isso que é bom. Eu gosto dessas coisas que provocam. Acho que o que a literatura tem que fazer é incomodar, provocar, te tirar do seu lugar de conforto. A partir disso você cria novos horizontes", avalia o fotógrafo.


A mostra está aberta para visitação nas terças, quintas e sábados, das 14h às 16h, e segue o Protocolo Setorial da Prefeitura de Salvador para Centros Culturais, Museus e Galerias de Arte. Essa e outras homenagens traduzem a grandiosidade de Clarice Lispector, que extrapola qualquer limite da literatura e chega a todos os lugares. Não há registros da escritora na Bahia, por exemplo, mas sua obra e vida pulsam por aqui.