• Eduardo Pepe

O Oscar do streaming

Antes vistos como patinho feio, os serviços de streaming devem dominar a temporada de premiações de cinema do próximo ano


Depois de intensa campanha da gigante do streaming, Roma (2018) acabou conquistando dez indicações e três vitórias no Oscar | Foto: Netflix

Há dois anos, a Netflix fez uma campanha gigantesca para Roma (2018), de Alfonso Cuarón, emplacar no Oscar. Além de ser um filme mexicano e em preto e branco, o que gerava o maior receio na indústria era o fato do filme ser da mais poderosa plataforma de streaming – e não de uma produtora de cinema tradicional. O embate maior se dava porque a Netflix não respeita a regra dos 90 dias de exclusividade, que consiste no lançamento de um filme em qualquer plataforma somente após três meses de estreia no cinema. A briga foi tamanha que a Netflix optou por comprar algumas redes pequenas de cinema e, assim, garantir a elegibilidade para o Oscar.


Roma acabou conquistando dez indicações e três vitórias no Oscar, incluindo a categoria de Melhor Direção. Entretanto, o prêmio mais importante da cerimônia, o de Melhor Filme, foi para Green Book – O Guia (2018), de Peter Farrelly. Muitos especialistas cravaram o motivo principal para a derrota de Roma: ser um filme da Netflix significa, para algumas pessoas da Academia, não ser um “filme para cinema de verdade”. Ao longo dos últimos dois anos, a Netflix continuou a investir pesado em produções cinematográficas com “C” maiúsculo, o que resultou na parceria com o grande cineasta Martin Scorsese para a realização de O Irlandês (2019). Mas o Oscar de Melhor Filme ainda não veio.

Agora, o cenário é outro. Para a indústria cinematográfica, 2020 foi um ano sem precedentes. Por conta da pandemia do Covid-19, os cinemas ficaram fechados no mundo todo e inúmeras produções foram paralisadas. Meses se passaram e a indústria começou a reagir – ou pelo menos a tentar. Com protocolos extremamente rígidos, determinados projetos voltaram a ser filmados e alguns cinemas foram reabertos. Ainda assim, Nova York e Los Angeles, as duas maiores cidades quando se trata de indústria cinematográfica, não voltaram às atividades normais. Não há paralelo possível com nenhum desastre histórico. Nas guerras mundiais, por exemplo, houve pontuais interrupções, mas eram questões localizadas e de curtos períodos. Nunca antes na história da humanidade os cinemas e a indústria foram paralisados por completo e por tanto tempo.

Nesse cenário incerto, com cinemas abrindo e fechando, o jeito encontrado foi fortalecer os serviços de streaming. A Netflix partiu na frente: além de suas produções originais, saiu comprando filmes que estavam sem distribuição garantida e até mesmo filmes de outros estúdios. Várias distribuidoras estavam – e ainda estão – desesperadas por entrada de caixa imediato e optaram por vender produções para plataformas de streaming. Esse foi o caso de Os 7 de Chicago, que seria da Paramount, mas, com a pandemia, a Netflix acabou garantindo a distribuição global do filme. Já disponível, o longa recria o julgamento decorrente de acusações em torno dos líderes da manifestação que ocorreu durante a Convenção Nacional Democrata de 1968. Com diálogos ácidos e cortantes e um baita elenco, o filme tem tudo para ser um dos recordistas de indicações do próximo Oscar.


A Netflix comprou os direitos para distribuição global do filme Os 7 de Chicago, que inicialmente era da Paramount | Foto: Niko Tavernise / Netflix

Segundo o site Goldderby, maior site de apostas para a temporada de premiações de Hollywood, dos dez filmes mais cotados para serem os indicados ao Oscar 2021, quatro são da Netflix e um tem distribuição internacional através dela. Faroeste estrelado por Tom Hanks e produzido pela Universal Pictures, News of the World, de Paul Greengrass, é a principal aposta do estúdio para o Oscar. Ainda assim, inseguro com a distribuição fora dos Estados Unidos devido à pandemia, o estúdio vendeu os direitos internacionais para a Netflix. Ou seja, nos Estados Unidos, é um filme da Universal. No resto do mundo, incluindo o Brasil, é um “Original Netflix”. O longa estreia nos cinemas estadunidenses no dia de Natal, enquanto a expectativa é que chegue à plataforma no primeiro bimestre de 2021.


Recentemente, dois filmes com chances no Oscar foram lançados na Netflix. O principal deles é Mank, de David Fincher, que gira em torno de como surgiu o roteiro do clássico dos clássicos Cidadão Kane (1941). Apesar dos elogios da crítica, o público vem se dividindo em relação ao filme. Por isso, é recomendado que se assista antes o próprio Cidadão Kane para entender melhor o ambicioso filme de Fincher, que visa fazer um recorte da época, ilustrar bastidores, relembrar disputas políticas e elucidar a importância do filme do Orson Welles no cinema contemporâneo.

Mais comercial, Era uma Vez um Sonho, de Ron Howard, também já está disponível no streaming. Tem feito o caminho inverso do filme de Fincher: apanhou bastante da crítica, mas vem crescendo no boca a boca do público. Baseado no livro de memórias com forte carga política de J. D. Vance, a imprensa rejeitou o estilo despolitizado e melodramático como o livro foi adaptado. O público geral, que desconhece o livro, vem se interessando pela história real de superação familiar. Conclusão: nem tanto ao céu, nem tanto à terra, o filme de Howard é mais acima do tom do que poderia, é um tanto superficial e não promove as discussões do livro, mas não deixa de contar uma boa história e entrega atuações, no mínimo, esforçadas de Amy Adams, Glenn Close e Gabriel Basso.

A Netflix também aposta em A Festa de Formatura, musical de Ryan Murphy, que entra no catálogo no dia 11 deste mês. Com Meryl Streep e Nicole Kidman no elenco, o filme é adaptado de um musical da Broadway e pode aparecer em categorias técnicas do Oscar, como Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Canção Original. Não se pode descartar também uma possível indicação para Meryl Streep, que possui a atuação mais elogiada do longa. Além disso, A Voz Suprema do Blues chega no dia 18. Viola Davis e Chadwick Boseman, em seu derradeiro último papel, são nomes fortíssimos para Melhor Atriz e Melhor Ator. O Céu da Meia-Noite, ficção científica estrelada e dirigida por George Clooney, chega colado no natal, 23 de dezembro, e é um forte candidato para Efeitos Visuais em um ano em que poucos blockbusters foram lançados.


Além da Netflix


Como de costume, a Disney também está na corrida para o Oscar e aposta em Soul, de Peter Docter. Além de ser o favorito ao Oscar de Melhor Animação, o filme da Pixar vem com elogios de sobra para ser um candidato apto para concorrer em categorias como Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. A animação foi mais uma produção afetada pela pandemia: sua estreia nos cinemas foi cancelada e vai ser lançada diretamente na plataforma de streaming Disney+, como adição ao catálogo para o Natal.


E por falar em Natal, a Warner pegou o mundo inteiro de surpresa quando decidiu fazer o lançamento simultâneo de Mulher-Maravilha 1984, de Patty Jenkins, nos cinemas e no HBO Max, no dia 25 de dezembro. Para um filme desse porte, é uma decisão sem precedentes na história. Para os brasileiros, que ainda não têm acesso ao streaming da HBO Max, fica a estreia nos cinemas uma semana antes: 17 de dezembro. Com isso, as distribuidoras internacionais têm sete dias de “exclusividade” antes do filme correr risco de “vazamento” na internet antes da estreia no HBO Max. De todo modo, o longa é um possível candidato para as categorias técnicas no Oscar.


Mulher-Maravilha 1984 surpreende ao estrear simultaneamente nos cinemas e na HBO Max | Foto: Clay Enos / Warner Bros. Entertainment Inc

Se a decisão sobre Mulher-Maravilha 1984 já surpreendeu a indústria, nem mesmo isso preparou o terreno para outro anúncio da Warner: todo o calendário de lançamentos da empresa para 2021 será lançado simultaneamente nos cinemas e na plataforma da HBO Max. Isso inclui desde o mega blockbuster Godzilla vs Kong, de Adam Wingard, ao candidato da Warner para o próximo Oscar, Judas e o Messias Negro. Dirigido por Shaka King, o filme é baseado na história de Fred Hampton na liderança dos Panteras Negras e sua relação com William O’Neal, um informante do FBI. O filme segue sem data confirmada, mas deve estrear até o fim de fevereiro nos Estados Unidos, caso queira ser elegível ao Oscar. Essa foi a data exigida pela Academia para que os filmes possam concorrer.


Neste ano tão atípico, a Apple inicia sua corrida para o Oscar com a plataforma AppleTV+, que já está disponível no Brasil. De antemão, lançou On the Rocks, novo filme de Sofia Coppola. A delicada e divertida comédia romântica, estrelada por Rashida Jones e Bill Murray, tem mais chances de brilhar no Globo de Ouro, que possui categorias específicas para comédia, mas o filme busca ser lembrado no Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante. As expectativas também rondam Cherry, dirigido pelos irmãos Russo, da franquia bilionária Vingadores. A Apple aposta que esse drama criminal, estrelado por Tom Holland, pode ser um candidato de peso ao Oscar. Entretanto, o lançamento é esperado para 26 de fevereiro, então ainda vai demorar para saber sua força.

Já a Amazon Prime Video pretende reverter o desempenho pífio do ano passado. Enquanto a Netflix conseguiu dez indicações só com O Irlandês, a Amazon ficou de fora de todas as categorias principais do Oscar 2020. Para mudar isso, as fichas estão em Uma Noite em Miami, drama dirigido pela atriz Regina King. Baseado numa peça homônima, o filme monta um encontro entre quatro personalidades emblemáticas da cultura afro-americana: Malcolm X, Sam Cooke, Muhammad Ali e Jim Brown. Chega ao Prime Video no dia 15 de janeiro. Outras duas produções da Amazon têm chances de serem lembrados no Oscar: O Som do Silêncio, em que Riz Ahmed interpreta brilhantemente um baterista de uma banda de rock que desenvolve problemas auditivos; e a comédia satírica Borat 2, em que Sacha Baron Cohen tira sarro da cultura norte-americana. Entretanto, são filmes que devem ganhar campanha para categorias específicas, tendo poucas chances de aparecerem em Melhor Filme.

Mesmo com tantas plataformas, o predomínio da Netflix é tamanho que algumas categorias enfrentam “sobrecarga” da gigante do streaming. A categoria de Melhor Atriz, por exemplo, tem uma disputa interna: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) e Vanessa Kirby (Pieces of a Woman) são as favoritas para vencer a categoria. Pieces of a Women, drama sobre um casal que perde um filho no parto, chega dia 7 de janeiro. Vindo de um lançamento tradicional, Frances McDormand come por fora na categoria de Melhor Atriz com Nomadland, da Searchlight Pictures. Há quem fale de Andra Day como a cantora Billie Holiday, mas ninguém tem a certeza se o filme da Paramount, The United States vs. Billie Holiday, irá, de fato, estrear a tempo do Oscar 2021.


Viola Davis é uma das favoritas para concorrer na categoria de Melhor Atriz pelo filme A Voz Suprema do Blues | Foto: Netflix

Antes fortemente cotada, a cinebiografia sobre Aretha Franklin, Respect, foi adiada para o segundo semestre de 2021 – quando se espera que as coisas já estejam se normalizando. Para a Netflix, no entanto, não há incerteza. Malcolm and Marie, estrelado por John David Washington e Zendaya, chega em 5 de fevereiro e pode sobrecarregar ainda mais a corrida. Isso sem falar em candidatos precoces: Destacamento Blood, filmaço de Spike Lee, que chegou em junho, e o divisivo, mas cultuado, Estou Pensando em Acabar com Tudo, que estreou em setembro. Ambos podem aparecer aqui e ali em algumas categorias. Aposto, especialmente, em Delroy Lindo por sua fantástica atuação no filme de Lee para concorrer a Melhor Ator.

Toda essa dominação se expande por outras categorias, como Melhor Filme Internacional. Ao menos sete países escolheram filmes com selo original Netflix e já estão disponíveis no catálogo. Dentre eles, se destaca o candidato mexicano Ya No Estoy Aquí, que é sobre um jovem apaixonado pela dança que precisa fugir do México após um mal-entendido com uma gangue. O filme tenta repetir o feito de Roma, que, há dois anos, levou pela primeira vez o Oscar de Melhor Filme Internacional para o país.


O Brasil até tinha um candidato da Netflix: Cidade Pássaro, de Matias Mariani, que é um belo filme sobre um nigeriano que viaja para São Paulo na intenção de encontrar seu irmão. Embora disponível no catálogo internacional da Netflix, o filme ainda não chegou ao catálogo nacional. De qualquer maneira, o candidato escolhido pela Academia Brasileira de Cinema ao Oscar 2021 foi Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, de Bárbara Paz, um documentário sobre a obra e os últimos anos de vida do grande diretor Hector Babenco. Em cartaz nos cinemas, a expectativa é que o filme chegue nas próximas semanas para aluguel digital.

Os candidatos “tradicionais", digamos assim, inclui o já citado Nomadland, que conta a história de uma nômade moderna que mora em seu trailer e muda a localização de sua casa a partir da busca por emprego. Dirigido por Chloé Zhao, o longa tem previsão de estreia para fevereiro. The Father, da Sony Pictures Classics, é um drama familiar de Florian Zeller que promete botar Anthony Hopkins e Olivia Colman de volta na corrida do Oscar. Minari, que fala sobre uma família coreana se adaptando a morar nos Estados Unidos, tenta ser o Moonlight (2017) deste ano e busca indicações em todas as categorias principais. Dirigido por Lee Isaac Chung, o longa é da cultuada distribuidora norte-americana A2. O romance lésbico de época estrelado por Kate Winslet e Saoirse Ronan, Ammonite, tenta, sobretudo, fazer suas atrizes concorrerem. O filme de Francis Lee é da distribuidora Neon, a mesma de Parasita (2019). Por fim, a comédia dramática ácida Promissing Young Woman, dirigida por Emerald Fennell e estrelada por Carey Mulligan, é a principal aposta da Focus Features. Nenhum destes, com exceção de Nomadland, têm data de estreia confirmada no Brasil.


Com os cinemas de Los Angeles e Nova York fechados, esses filmes “de cinema” terão que – ironicamente – ser enviados para a plataforma oficial de streaming dos membros da Academia. Outra possibilidade seria estrear nos cinemas drive-in. Entretanto, para realmente ter chances de ser visto pela maior quantidade de votantes possíveis, e, assim, ter chances reais de receber indicações, o filme deve estar na plataforma de streaming da Academia. Com isso, o que era exceção virou regra e o que era empecilho virou facilitador. Resta saber como serão os próximos meses e quais tendências irão se manter ou não nos próximos anos. Os indicados ao Oscar 2021 serão conhecidos no dia 15 de março. A cerimônia será em 25 de abril.


*Por Eduardo Pepe, jornalista, crítico costumas, apaixonado por cinema, música e arte em geral