• Gabriel Fraga

Os desafios durante uma infância viada

Atualizado: 11 de Nov de 2020


Jovens LGBT+ relatam como a imposição heteronormativa impactou suas vivências durante a infância


Adriana Peleteiro sonhava em ter brinquedos de meninas | Foto: Acervo Pessoal

Apesar de ter se entendido enquanto uma mulher apenas no ano passado, Adriana Peleteiro já percebia sinais desde os seus 7 anos. Para ela, tudo do universo feminino – ou o que era dito ser para meninas – era mais interessante, legal, bonito e divertido de brincar e ser. “Desde aquela época eu percebia que era diferente das outras crianças. Sempre disseram que eu era um menino, mas não era assim que eu me sentia e queria me ver”, lembra Adriana.

Hoje, aos 23 anos e estudante de Publicidade e Propaganda, a jovem percebe que foi muito repreendida na infância por querer pintar as unhas, passar batom – sonhando em ter um de sabor morango –, ter bonecas e brincar com suas primas de “coisas de menina”.

Naquela época, ela ainda não tinha compreensão do que era ser menina ou ser menino, apenas ouvia das pessoas a forma que deveria se comportar. “Adultos mandam e se você faz o algo que não esperam, você apanha, fica de castigo ou ouve reclamações”, reflete Adriana.

A estudante lembra que gostava de pegar os saltos da mãe e ficar andando pela casa enquanto assistia aos vídeos da Banda Calypso. “Eu lembro que tentava reproduzir as coisas que passavam no DVD: o dançarino tirando o vestido de Joelma, o bate-cabelo, querer usar bota com salto”, conta.

Mas ela não fazia esse tipo de coisa na frente dos familiares. Sabia que, mesmo sendo apenas uma criança, seria repreendida. “Era coisa de viadinho e [para a família] ser viado era uma aberração, feio, ridículo e não era coisa de Deus”, explana Adriana.

Isso reflete não só a sociedade patriarcal, mas como seus ideais e estereótipos se manifestam durante o processo de criação e crescimento das crianças. Desde a infância, as pessoas podem ter alguns de seus comportamentos, falas, trejeitos ou gostos repreendidos quando eles não são considerados apropriados para “meninos” ou “meninas”.

“Devido ao processo histórico e civilizatório do Brasil, a nossa cultura ainda tem um viés patriarcal que interfere diretamente na construção da subjetividade da criança”, afirma a psicóloga Lizana Oliveira, utilizando como exemplo a prática dos chás de revelação, nos quais o sexo do bebê é distinguido em sua maioria entre rosa e azul, “fazendo uma analogia sexista à associação de cores e gênero”.

Ela ressalta que é fundamental ter o entendimento da dinâmica cultural na qual a sociedade está inserida, mas também é importante a quebra de paradigmas. “Esses mesmos protótipos foram impostos ao longo dos anos dentro de padrões pré-estabelecidos de masculinidade e feminilidade que abarcam a desigualdade de gênero na sociedade em que vivemos”, aponta Lizana.

Para Mário Ferreira, formando em Administração, essa desigualdade de gênero e sexualidade fica clara quando parentes fazem comentários desconfortáveis sobre seu comportamento ou quando os pais cobram por uma postura que você naturalmente não tem. Desde a infância, o jovem gostava de estar na companhia de meninas, mas sabia que as pessoas ao seu redor não aprovavam isso.

“Teve uma vez que eu estava na casa de uma vizinha, que ficava em frente à casa de minha avó. Era aniversário dela e estava todo mundo numa rodinha comendo bolo, até que sua mãe saiu de casa, foi até o grupo e me mandou ir embora porque a filha dela só andava com menina”, lembra Mário, que na época não tinha mais do que 6 anos.

Mário chegou a sofrer constrangimento de adultos pela maneira como se comportava | Foto: Acervo Pessoal

Em outra situação, alguns parentes estavam assistindo à filmagem de um casamento e, quando Mário apareceu dançando, pausaram para comentar coisas como “esse aí vai ser”, deixando ele e a mãe totalmente constrangidos. Como se um garoto dançar fosse errado.

“Muitas vezes é uma pressão que não ocorre só nas crianças, mas também nos pais, que acabam oprimindo os filhos por conta do julgamento de outras pessoas”, reflete o estudante, afirmando que é algo que molda a personalidade do indivíduo, já que geralmente são crianças que também sofrem bullying em locais como a escola, tendo ele mesmo passado a reagir à opressão de forma mais agressiva.

Mas essa não é a realidade de todos. Diferente de Mário, Laura Santana preferia a companhia de meninos. Ela nunca gostou muito de brincar de boneca, queria jogar bola na rua, empinar arraia e correr de um lado para o outro, brincando de pega-pega ou esconde-esconde – e os pais apoiavam. “Eles mesmos levavam para fazer capoeira, jogar vôlei, basquete, futsal”, conta a estudante de Gastronomia.

Leandro da Mata também teve apoio dos pais e viveu uma infância com muito carinho, amor e gentileza. O estudante conta que nunca se privou de brincar tanto com meninos quanto com meninas, e que seus pais nunca deram ouvidos aos comentários maldosos de outros adultos. “Naquela época eu não tinha uma percepção muito clara sobre isso, mas hoje eu consigo ver que meus pais sempre priorizaram muito a minha felicidade, principalmente a minha mãe”, avalia Leandro.

O adolescente lembra que sempre gostou muito de música pop – tendo a cantora estadunidense Miley Cyrus como sua grande inspiração –, algo que é, até hoje, estritamente associado à comunidade LGBTQIA+. Por conta disso, sempre teve medo de que as pessoas quisessem assumi-lo à força e tentava se esquivar de qualquer ofensa.

“Eu tinha medo de ouvir coisas como ‘ah, você é boiola porque ouve Lady Gaga’, ‘você é isso porque gosta de Madonna’ e tantas outras pessoas que são ícones da cultura pop, então eu sempre retrucava, fugindo da minha realidade para agradar os outros”, explica Leandro.

Além dos pais, o estudante sempre contou com sua madrinha, quem ele sempre enxergou como uma mulher forte e determinada, que luta por tudo o que ela quer. Ela o ensinou a viver e correr atrás de seus sonhos. “E naquela época era um sonho meu ser quem eu realmente era, ser verdade, ser Leandro mesmo”, conta.

Já Raylan Karvalho foi uma criança que gostava de chamar atenção e tem uma coleção de fotos em apresentações escolares. Ele lembra que acordava para assistir “Três Espiãs Demais” e tinha a companhia da mãe, que sempre foi uma amiga e uma pessoa de extrema importância para sua evolução.


Raylan sempre contou com o apoio da mãe | Foto: Acervo Pessoal

Ele sente que sempre foi muito livre por causa de sua criação e que isso se reflete hoje em sua forma de pensar, falar e ver o outro. Além disso, era uma criança bastante sonhadora e tinha um lado artístico: gostava de desenhar, escrever e arriscar coisas diferentes. “Eu era muito iludido, sabe aquela criança Disney? Era eu”, diz Raylan entre risos.


Na sala de aula


Além da importância dos pais e familiares no desenvolvimento das crianças, a escola é uma instituição fundamental não só para promover o conhecimento, mas para desenvolver as habilidades sociais e visão de mundo. Naquele ambiente, a infância é dividida com pessoas diferentes do seu núcleo familiar.

Porém, muitas crianças tiveram – e ainda têm – experiências ruins no âmbito escolar, o que reflete um sistema falho em relação a garantia da integridade física e psicológica de seus alunos. Uma pesquisa realizada em 2015 pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) aponta que um em cada dez estudantes brasileiros é vítima de bullying.

Adriana Peleteiro foi uma dessas vítimas. Ela lembra que recebeu xingamentos muitas vezes e era excluída pelos colegas, mas sempre rebatia as críticas, brigava e reclamava. Nunca foi de ouvir, ficar calada e levar desaforo para casa. Mas aquilo machucava, e ela queria entender o porquê de ela ser diferente dos seus irmãos e dos meninos da escola. “A todo tempo eu tinha crises, não me entendia naquele corpo, sendo aquela pessoa que diziam que eu era”, desabafa Adriana.

Laura Santana também sentiu a exclusão durante seu tempo na escola. Ela conta que só não ficava completamente sozinha porque sua irmã gêmea estudava na mesma turma. As pessoas não andavam com elas no intervalo, nem faziam trabalhos em grupo. As duas eram “as esquisitas da sala”. “Eu nunca soube o real motivo, ninguém nunca parou para falar e eu também nunca me interessei por perguntar”, afirma a estudante.

Raylan karvalho não se deixou abalar porque gostava de ser o centro das atenções e tinha muitos amigos, mas também passou por situações de bullying, principalmente por ter uma voz bastante fina na época. “Dentre as muitas situações, eu lembro que ficavam me chamando de mão quebrada, como fazem com todo gay, e eu chegava a engrossar a voz quando ia comprar pão, por exemplo, por conta das coisas que eu ouvia no colégio”, observa Raylan.

Por outro lado, Leandro da Mata acredita que muito do preconceito que sofreu no período escolar partiu dele mesmo. Quando chegou ao ensino fundamental, ele passou a esconder algumas coisas que ele gostava, como a dança, por medo do que os outros poderiam falar, de como as pessoas iriam julgá-lo.

Leandro acredita que também teve preconceito consigo mesmo | Foto: Acervo Pessoal

“É muito importante falar sobre o preconceito que nós criamos contra nós mesmos, porque isso acaba tirando a nossa felicidade e você se torna alguém sem personalidade, aquilo que as pessoas querem que você seja, não o que você é”, avalia Leandro.

Ele encontrou bons exemplos na escola: Rodrigo, seu professor de Educação Física, e as amigas Carine, Nalanda e Sofia o ajudaram nesse caminho de autoaceitação. “Observar Rodrigo viver era muito importante para mim, a forma como ele lidava com os problemas, a energia positiva que ele transbordava”, comenta Leandro.

De acordo com a psicóloga Lizana Oliveira, dois pilares importantes para um bom desenvolvimento humano, desde a primeira infância à fase adulta, são o amor e a escuta. Com o amor vem a aceitação e a escuta promove o respeito à singularidade do outro, independentemente de quais são os padrões impostos à vida.

“Uma criança que não é aceita por não cumprir as expectativas da sociedade no campo comportamental e cultural, provavelmente terá dificuldade em desenvolver habilidades nas relações humanas”, explica Lizana. “Isso porque suas primeiras experiências são de desamor e desvalor”, completa.

Ter pessoas-referências e apoiadoras são significativas na infância viada. “Através dessa interação com o externo, no campo simbólico e comportamental, a criança desenvolve suas habilidades cognitivas e discerne o seu lugar na sociedade”, explica Lizana.