• Eduardo Pepe

The Boys in the Band: somos os mesmos de 50 anos atrás?

Atualizado: 24 de Out de 2020

Novo filme da Netflix adapta com fidelidade a clássica peça de 1968 que acompanha uma festa de aniversário que reúne amigos gays


The Boys In The Band estreou dia 30 de setembo na plataforma de streaming | Foto: Scott Everett White / Divulgação

No pôster da primeira adaptação para o cinema de “The Boys in the Band", lançada em 1970, havia escrito: “The Boys in the Band is not a musical”. Faz sentido. É preciso avisar que a “banda" do título não tem nada a ver com música e muito menos com musical. A “banda” do filme é um grupo de 7 amigos, um "presente" e um "intruso" que se reunem em um apartamento em Nova York para comemorar o aniversário de um deles. Todos são gays – ou quase todos, pelo menos.

Quando lançada inicialmente, a peça estreou em circuito alternativo em Nova York, o chamado “off-Broadway”. Isso foi em abril de 1968, poucos meses antes do movimento da Rebelião de Stonewall, um evento-chave na luta pelos direitos LGBT+. O dramaturgo Mart Crowley afirmou que não sabia que estava fazendo algo arriscado e muito menos algo, de certa forma, revolucionário: não haviam peças em circuito comercial em Nova York com personagens gays em sua intimidade. E essa “intimidade" não tem a ver com sexo e, sim, com naturalidade. Apenas homens gays conversando entre amigos e falando o que pensam, sem disfarces, sem tabus, sem censura e sem amarras.

“The Boys in the Band” foi vanguarda e, mesmo nos anos 60, foi além da representatividade contratual, que se exige atualmente. A partir de si mesmo e de amigos, Crowley, o autor da peça que também assina o roteiro da adaptação da Netflix, lançada no mês passado, criou um mosaico de personagens gays autênticos, cheios de camadas e lidando com as delícias e as dores de serem quem são. E colocou o texto na boca de um elenco maioritariamente gay. E, os que não eram, foram lidos pela sociedade como se fossem.

A peça reestreou algumas vezes nos Estados Unidos ao longo dos anos; uma vez nos anos 90, uma vez em 2010, teve até montagem em Londres em 2016 e antes mesmo disso houve uma sequência lançada em 2003 oportunamente chamada de The Men from the Boys. E assim a peça foi ganhando importância e status de clássica. Mas o mainstream, digamos assim, o absorveu mesmo em 2018 quando a peça reestreou precisamente 50 anos depois da primeira encenação. Dessa vez, no circuito da Broadway. Esse revival, quando lançado, foi anunciado como a nova versão da peça que representou uma "virada no jogo teatral” e “que ajudou a desencadear uma revolução ao colocar a vida de gays no palco, sem desculpas e sem julgamento”. A nova montagem, inclusive, levou o Tony, o "Oscar do teatro", de "Melhor Revival de Peça".

Esses 50 anos que separam as duas versões surgem em contextos bem distintos. E não é nem necessário enumerar os novos movimentos LGBT+, novas reivindicações e pautas, leis de combate ao pré-conceito ou legalização do casamento homoafetivo, basta olhar para o elenco: na primeira adaptação para o cinema, de 1970, os 9 atores arriscaram suas carreiras ao aceitarem fazer uma peça gay.

Do elenco original, 6 dos 9 atores eram, de fato, gays. Nenhum deles se tornaram grandes estrelas. Dois deles seguiram carreiras com alguma maior notoriedade: Leonard Frey chegou a ser indicado a um Oscar e ganhar um Tony, tendo aparições também na televisão, já Laurence Luckinbill, um dos atores que não era gay, chegou até a aparecer em um filme do “Star Trek” e permanece até hoje em atividade. Mas o que era considerado “suicídio profissional” por qualquer agente em Hollywood na época, hoje pode ser até entendido como aproveitamento indevido do tal do “pink money”, a comercialização de produtos para o público LGBT+.

Na versão de 2020, todos os 9 atores são gays assumidos. E famosos. Não apesar disso, mas também por isso. E isso, por si só, é um posicionamento claro de mudança dos tempos. Ficando apenas entre os nomes maiores temos Jim Parsons, dono de 4 Emmys e ator mais bem pago da televisão por anos seguidos por causa da recém finalizada série “The Big Bang Theory”, Matt Bomer, amplamente conhecido pela série “White Collar”, e Zachary Quinto, que protagonizou filmes da franquia “Star Trek”. O resto advém a maioria de uma carreira de sucesso no teatro.

Claro, o mundo está longe de ser utópico e todos sofrem de alguma forma homofobia na vida e no trabalho. Matt Bomer, por exemplo, já deu entrevistas afirmando que perdeu papéis ao se assumir e polêmicas correram soltas afirmando que o ator foi descartado como possibilidade de filmes como “Homem de Aço" e “Cinquenta Tons de Cinza” por causa de sua sexualidade ter se tornada pública. Mas, dificilmente, o agente de algum deles, todos hoje "gay and proud" assumidamente, o aconselhariam a não fazer esse filme. Realidade para alguns que nos anos 60 parecia impossível, mesmo que para um seleto grupo.

Mas o ponto é: passado tanto tempo, como a peça (e o filme) resistiu ao tempo? Ainda é relevante? É preciso pontuar que a nova adaptação é uma versão quase siamesa da primeira adaptação de 1970, que, por sua vez, é uma adaptação hiper fidedigna do texto original da peça. Ou seja, se limita a reproduzir a peça com linguagem cinematográfica e com o elenco do revival da Broadway de 2018. Pode se dizer que faz apenas o arroz com feijão, mas, também, como mexer em algo tão marcante?

Os protagonistas do filme são atores assumidamente gays | Foto: Scott Everett White /Divulgação

No mini-documentário, intitulado “The Boys in the Band: Um Olhar Pessoal”, que traça um resumo do impacto e caminhar da peça até a realização do filme e que a Netflix sugere para ver em seguida ao fim do filme, o autor reproduz reações que ouviu quando a peça reestreou em 2018: “os da minha idade diziam; “nós não somos mais assim” e os mais jovens diziam “bem, nós ainda somos assim”. E é nisso que reside o poder e impacto do texto: a humanidade das incertezas da juventude. Ou do fim dela. Afinal, boa parte dos personagens já passaram dos 30 e alguns até se aproximam dos 40.

Quase não tem espaço para romance; é um drama psicológico sem meias verdades, com um humor soda cáustica sempre a espreita. Mais que um olhar para uma geração, é um olhar despudorado para uma fase da vida; a estabilização da vida adulta. Entretanto, um olhar um tanto amargo estaria desconectado das pautas atuais que clamam por empoderamento? A resposta básica seria sim, mas a realidade se mostra um pouco mais complexa. O empoderamento e a busca por esperança não podem anular a denúncia e o olhar para o trágico. Elas vivem juntas co-existindo. E é basicamente sobre isso o filme: amor e ódio, amizade e inimizade, humor e drama. São 9 personagens, todos imperfeitos e cheios de defeitos prontos para serem cancelados por um textão em uma rede social.

A falta de mudanças em relação à peça e a primeira versão para o cinema pode ser adjetivada como falta de ousadia ao não trocar muito mais que uma vírgula ou duas no texto clássico. Entretanto, em outro olhar possível, a ousadia pode residir justamente aí; não “modernizar”, não tornar mais palatável, não contornar para uma linguagem mais politicamente correta. Até mesmo piadas ofensivas feitas em provocações para alguns personagens, que os repreendem e também são repreendidos, foram mantidos para espanto de qualquer “sensitivity reader” (leitor de sensibilidades), profissional que analisa obras antes de serem lançadas para revisar trechos que possam soar ofensivos. Mas o intuito parece ser exatamente esse: mostrar o ácido e enérgico texto original para novas gerações.

A peça é como ouvir escondido o barraco do vizinho: é curiosa, é engraçada, é triste e tem coisas que só são ditas entre 4 paredes. E, justamente por isso, pode ser mal vista por parte do público pensando que a imagem não tão colorida e positiva dos personagens gays pode ser lida como algo retrógrado ou mesmo difamatório. Até porque dificilmente alguém vai querer se identificar totalmente com algum dos personagens, mas é igualmente difícil não se identificar em nada com nenhum deles. E identificação é a chave para a perenidade. Enquanto houver quem se enxergue e identifique terceiros, ainda permanece atual. Por isso, “The Boys in the Band”, apesar de tudo, ainda poderia ser em 2020, porque como diz a canção: “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

Filme: The Boys in the Band

Ano: 2020

Direção: Joe Mantello

Elenco: Jim Parsons, Zachary Quinto, Matt Bomer, Andrew Ranells, Charlie Carver, Robin de Jesus, Brian Hutchison, Michael Benjamin Washington, Tuc Watkins

Onde: Netflix


*Por Eduardo Pepe, jornalista, crítico costumas, apaixonado por cinema, música e arte em geral